AUGÚRIO

Ele chegou no velório
Quis saber quem se velava
Um senhor que lá estava
Informou ser o Thenório

Parecia estar maluco
Em não saber quem eu era
A ficha caiu, pudera
Era parceiro no truco

Só de me ver de pés juntos
Sentiu certa dor no peito
Meu colega, bom sujeito
Hoje é um dos defuntos

Mas é assim que acontece
Há pouco, muito sorriso
De repente, sem aviso
Azula, desaparece

Como já saiu de cena
Então vaga pelo mundo
Mas folgado, vagabundo
Vai protelar sua pena

Pela crença que seguia
Tudo paga aqui na terra
Mas o ciclo não encerra
Deve voltar qualquer dia

FINGIMENTO

Por longos anos doente
Você não a visitou
Agora Deus a levou
E você se faz presente

Quem no velório aparece
Depois de tudo o que fez
Supõe bastar desta vez
Balbuciar uma prece

Campeã de fingimento
Já se sabia que era
Só que para ser sincera
Precisa de cem por cento

Se não cultiva o amor
Não sei qual é a razão
Mas ter novo coração
Só mesmo Nosso Senhor

Eu tenho cá para mim
Que se quita o quanto deve
Até quem tem pena leve
Paga tintim por tintim

DEVANEIO

Sonhei que estava na praia
Lagarteando na areia
O ter a vida sem peia
Favorecia a gandaia

Uma mulher aparece
Eu garanhão assumido
Jovem, com muita libido
O que se deduz acontece

Acordo, caio na minha
Pareço meio caduco
Sonhasse então ser eunuco
Muito mais sentido tinha

Mas chega de devaneio
Nem tudo o que quero posso
Eis porque a vida adoço
Se não encontro outro meio

Tudo no mundo tem fim
Então, paciente espero
Partir confesso que quero
É descanso para mim

Mas deixar carga pesada
Talvez por um ou mais anos
Não estava nos meus planos
E não posso fazer nada

RESIGNAÇÃO

Muitas vezes quase choro
Sofro, mas até imploro
Não tenham pena de mim
Porque na fé que professo
O sofrer me traz progresso
É tão bom pensar assim

Se tantos males eu fiz
Devo me julgar feliz
Em pagar o quanto devo
Para cada mês que passa
Ao Pai maior rendo  graça
Até por já ser longevo

Pesada é minha cruz
Mas nunca me falta luz
Neste meu duro caminho
A vida por ser tão curta
Se da morte não se furta
É minha vez, já definho

Se dependesse de mim
Quando chegasse meu fim
Levava minha consorte
Penso que o lado de lá
É bem melhor que o de cá
Daí não temer a morte

PARENTESCO

Cunhado não é parente
Disse Leonel Brizola
Esse dito me consola
Até me deixa contente

Se o parente verdadeiro
Partiu para a eternidade
Agora a cara-metade
Dispõe de todo o dinheiro

Isso vai mexer com ela
Empolgada com a grana
À cunhada uma banana
Mudou, não é mais aquela

Então a parente afim
Dona do próprio nariz
Tem hoje a vida que quis
Livre, vive bem assim.

Mas no futuro decerto
Ou no presente talvez
Daquilo que em vida fez
Prestará conta por certo

Nota: Leonel Brizola, político riograndense

DESABAFO

Quando se vende saude
Certo parente aparece
Mas na doença ele esquece
Fato que se vê amiude

Nem parece ser parente
Esse indivíduo carola
Para o vigário dá bola
Só tem a igreja na mente

Lá ele bate no peito
Pede perdão porque peca
Quem sofre que leve a breca
Agora o mal foi desfeito

Visitar um ser doente
É demonstração de amor
Esquecê-lo causa dor
Se foge sendo parente

Afastamento, desprezo
Mesmo de parente afim
Queira ou não magoa sim
Quem nos ombros leva o peso

Uns perdem a compostura
Ao ver tamanha maldade
Que de ofender tem vontade
Mas por bom senso segura

Há muitos males no mundo
Que podem levar à morte
Por muito que seja forte
Morre em questão de segundo

PARCERIA

Seria bom se pudesse
Fazer uma parceria
Mas à minha revelia
Meu pendor ora fenece

Temo assumir compromisso
Dada a fase que atravesso
Sinto mas vênia lhe peço
Logo quem nunca foi disso

Hoje preciso ser forte
Para levar minha cruz
Mas peço força a Jesus
Para cuidar da consorte

Esse peso que carrego
Parece ser uma prova
Porém Jesus me renova
Razão porque não me entrego

Vida é curta passagem
Logo mais tudo se finda
Tenho cartuchos ainda
Chama-se fé e coragem

CREPÚSCULO

Pelos problemas que tenho
Agora, no fim da vida
A inspiração foi perdida
Nem porto mais meu canhenho

Por não temer o futuro
E já ter noção do além
Procuro proceder bem
Longe porém de ser puro

Se não vivo como santo
Confesso, sou pecador
Mas Deus que é puro amor
Acolher-me-á, garanto

Enquanto Ele não me chama
Temo ficar neste mundo
Mormente se moribundo
Diuturnamente na cama

Morrer sei que é preciso
E não tardará decerto
Pode ser que esteja perto
Deus vai cobrar, estou certo

PESCARIA DE REDE

Houve um tempo em que com certa freqüência eu ia pescar lambari no Bairro Alvarenga, alguns quilômetros além de São Bernardo do Campo. Ali tirou-se muita areia para construção e nas cavidades deixadas formavam-se poças onde fisguei muitos peixes. Havia também um córrego que se ligava com a represa Billings, onde também pesquei bagres, trairas, etc..

Certa vez, a convite de um amigo que tinha carro (fato raro nos idos de 1950) fomos pescar em certo lugar da represa onde, segundo ele, faríamos uma grande pescaria de lambaris. Esse amigo convidou também um senhor que tinha um compromisso de retornar a tempo para almoçar na casa de certo parente.

Achei aquilo muito estranho mas nada falei a respeito. Chegamos no lugar indicado pelo amigo mas a pescaria foi infrutífera, quer com anzol quer com a pequena rede de minha propriedade.

Devido à frustração propus fôssemos no citado Bairro Alvarenga, meu local de pesca preferido, onde certamente teríamos melhor sorte. Chegados, decidimos fazer uma barragem no córrego e começamos a passar a pequena rede em direção à barragem com relativo sucesso.

Quando chegamos à barragem já passava de meio-dia. O dono do carro e seu amigo compromissado já se preparavam para deixar o local mas, nesse momento, entramos no lago criado pela barragem e ali os lambaris e outros peixes estavam concentrados de tal modo que os lambaris saltavam por sobre a redinha , tamanha a quantidade. Isso trouxe de volta os dois que estavam fora de saída.

Empolgados eles também perderam a noção do tempo e, assim, por mais de uma hora continuamos a empreitada de modo hilariante.

Eram quase 14,00 horas quando entramos no carro para retornar a Santo André. O compromissado foi o primeiro a ser deixado em seu domicílio.

Ao chegarmos já ouvimos os impropérios ditos pela esposa alucinada com o procedimento do marido… Ela só não o chamou de santo, tamanha a fúria.

Eu, constrangido e aborrecido, coloquei alguns peixinhos na minha marmita e procurei manter distância do local.

Sentindo a gravidade do momento, assumi uma posição de nunca mais levar para uma pescaria alguém compromissado. Ainda hoje, passados mais de 50 anos, mantenho meu propósito. Pescador que se presa não assume nenhum compromisso em dia de pescaria para não complicar a vida dos companheiros. A pesca é para refrescar a cabeça.

PASSAGEM

A bondosa criatura
Lutou muito na procura
De esculápio competente
Após muito sofrimento
Quase sempre sem alento
Teve cura, felizmente

Muito tempo de tortura
Gastou, ficou na pindura
Mas vê mudança na vida
Tem melhora a cada dia
Graça que sempre pedia
Ora por Deus atendida

Mas encarava com riso
De o viver não ser preciso
Como por vezes ouvia
Aqui só uma passagem
Depois a grande viagem
Somente assim ela cria

Quem tem esse pensamento
Sente deveras alento
Mesmo quando moribundo
Acha ser dever de Deus
Cuidadoso com os seus
Dar-lhe guarida além-mundo

DESUNIÃO

Nambiquara, carajá
Apinajé, macuxi
Tenehara, guarani
Arucuiana, suiá

Xaperu, tapirapé
Tapaxana, pareci
Camacura, canabi
Apurina, javaé

Baxiara, caiapó
Xumi, xerente, avá
Cumanaxo, urupá
Tucano, craó, guató

Tabajara, tamuana
Apotó, tapacoá
Canoeiro, xambivá
Tereno, maku, ximana

Cumiana, ximbuá
Bororo, taramembé
Xipinauá, tamaré
Xontaquiro, cumaná

Por nunca haver união
Pagaram enorme preço
Mas unidos no começo
Baldariam a invasão

Sozinho pouco se faz
Isso por mais que se torça
Unidos se tem a força
Meio de manter a paz

UM CAIPIRA SAUDOSO

A alguns quilômetros da Vila Élvio, distrito de Piedade, estado de São Paulo, morava o Sr. Pedro Godinho, caipira desembaraçado, brincalhão, amigo, bem-quisto de todos. Nos arredores da Vila Élvio havia muitos carvoeiros, todos italianos, que se davam muito bem com os moradores dali. Eles gostavam de provocar o Sr. Pedro e apreciar as histórias, às vezes inverossímeis, contadas com muita naturalidade. Entre outras, ele contava a história do tatu que encontrou empoleirado em uma árvore que, abatido, levou para casa e pediu para sua mulher preparar um virado que ele comeu a não poder mais.

Essa comilança acarretara-lhe um empate total, pois ficara três dias sem evacuar, problema só resolvido pela ingestão de muito óleo de rícino. Ele deduziu daí que o tatu era uma assombração, mesmo porque tatu não trepa em árvore. Os italianos se divertiam ao ouvir essa e outras histórias e após muita conversa propuseram-lhe o seguinte: levá-lo até a Praça da Sé para ver como ele sairia de lá. O Sr. Pedro aceitou a proposta sob a seguinte condição: caso ele retornasse para a Vila Élvio levaria um italiano para o sertão do Turvo e o deixaria lá. O Sr. Pedro alegava que com dinheiro no bolso ele sairia do centro de qualquer cidade, por grande que fosse, mas o italiano jamais sairia do sertão. Naquele sertão só o conhecimento poderia salvá-lo. O dinheiro naquele local seria inútil.

A aposta não pode ser concretizada.

O BURRO VALENTE

Meu pai trabalhava em terrenos pertencentes aos seus pais ou aos de seus sogros. Todos estavam distantes de casa entre quatro e vinte quilômetros. Para trabalhar naqueles mais próximos, meu pai tomava emprestado do meu avô materno não só o burro como os aperos e também os cestos nos quais trazia da roça alguns produtos, como feijão, milho, batata e outros alimentos.

Eu, o mais velho dos irmãos, tinha um peso inferior à soma dos pesos dos meus irmãos. Íamos para a roça dentro dos dois cestos, mas para equilibrar meu pai colocava uma pedra no cesto que me era destinado. Era uma maneira sábia de chegar mais depressa na roça. No retorno nem sempre eu usufruia da vantagem de vir no cesto.

Quando o trabalho era no terreno de meu avô paterno, passávamos por um trecho aterrado, que dividia parte da represa de Itupararanga. Quando resolveram aumentar o nível das águas, foi feito um desvio que aumentava o trajeto em mais de um quilômetro.

Certa vez, meu pai resolveu voltar pelo antigo aterro, agora submerso, com um burro carregado, na suposição de que seria fácil transitar a vau. Como era um aterro, o animal escorregou para lugar mais fundo. Meu pai ficou desesperado, pois não era dono do animal, nem dos aperos. Creio que tenha solicitado a proteção divina nesse momento crucial. Para gáudio dele, eis que o burro carregado nadou, encontrou o aterro, e saiu tranqüilamente, fato este testemunhado por mim.

Creio ter sido a última vez que meu pai quis encurtar o caminho. Foi mais ou menos nessa época de expansão da represa que a maleita vitimou muita gente, inclusive meu pai, que por muitos anos sofreu com a moléstia transmitida por certo mosquito. Era nessa represa que ele pescava as grandes traíras e bagres. Quando a pescaria era diurna, ele me levava e assim fui tomando gosto nessa divertida atividade. Também minha tia materna, Benedita, me levava e também meu primo Dário para pescar no grande tanque localizado nas proximidades de sua casa.

Certa vez eu fui sozinho, peguei uma traíra e por preguiça fiz uma cova no brejo, e ali coloquei três ou quatro traíras. Quando aumentou a água da poça as traíras fugiram da cova, o que me aborreceu muito. Por inexperiência, quando uma traíra abocanhava a isca, eu dava tamanho golpe para cima que o peixe caía no mato. Então o peixe, depois de pescado, precisava ser caçado na mata. Pelo movimento que a traíra fazia, acabava sendo localizada.

Neste tanque usava-se toucinho como isca, na qual se cuspia antes de jogá-la na água. Talvez fosse uma espécie de simpatia. Tive uma infância pobre, porém divertida.

O DÁRIO

Meu primo Dário era meu amigo inseparável. Com ele, fazíamos tantas estripulias. Lembro-me que certa vez surrupiamos o polvarinho do nosso avô, espalhamos a pólvora da terra no chão, encostamos uma brasa que foi assoprada pelo Dário. A pólvora incendiou-se atingindo a sobrancelha e os olhos dele. Ele ficou quase cego por certo tempo. Por sorte, a cegueira não foi permanente.

PESCARIA DESASTRADA

Depois que mudamos para Santo André, em abril de 1943, eu continuei pescando, agora na represa Billings, onde também havia variedade de peixes, tais como acarás, lambaris, tambiús, bagres, carpas e traíras. Tive muitos colegas pescadores, entre os quais cito o Pedro Alves, e seu cunhado e grande amigo Aristides, vulgo Benate.

Certa vez, saimos de casa, alta madrugada, e quando chegamos no Tanque dos Turcos começou a polêmica. Os caminhos se bifurcavam, um achava que devíamos seguir pela direita, outro dizia ser pela esquerda. Prevaleceu o parecer do Benate. Seguimos pela escuridão, atravessando lenheiros onde faziam carvão. Perdemos a noção de onde estávamos e andamos horas sem chegar a lugar nenhum. Quando amanheceu, qual não foi a nossa decepção ao constatarmos que após tantas voltas retrocedemos ao Tanque dos Turcos.

Fácil é dizer o nervosismo do Pedro após tanta caminhada em vão. Já adulto e de bicicleta, muitas vezes fui pescar sozinho e por duas vezes sofri acidente.

SANTO OFÍCIO

Em nome da santidade
Sempre sentiu-se à vontade
Do mundo era meio dono
Talvez por ser poderoso
Era papa perigoso
Eis então Gregório IX

Inventor de tribunal
Onde a pena capital
Fora fato corriqueiro
Após a perseguição
O suposto não cristão
Depenavam por inteiro

Errar é do ser humano
Persistir só por insano
Que pensa ter dom divino
Só Deus é dono da vida
Assim quem for homicida
Paga caro o desatino

Prender, ação costumeira
Às vezes forca, fogueira
Muitos meios de suplício
Mesmo a denúncia vazia
A inquisição já punia
Assim era o Santo Ofício

Mas será que nosso Deus
Pai que zela pelos seus
Aceitou tanta maldade ?
Todos pensamos que não
Só merece salvação
Quem de Deus fez a vontade

PUSILANIMIDADE

É sempre preocupante
Mas quem gira como errante
Sabe que terá retorno
Desde que virou defunto
Vem à tona tal assunto
Nunca sujeito a suborno

Eis porque o desenlace
Há pouca gente que abrace
Pois parece não ser leve
Quem portou-se bem na vida
Não teme pela partida
Para pagar o que deve

Se já leu muito a respeito
Sabe não ter outro jeito
Já que a vida tem um fim
Se soube viver na terra
Com chave de ouro encerra
Mas nem sempre é assim

Saldar o resto da pena
É só na vida terrena
Onde se paga o que fez
Se volta e não se corrige
Ou não cumpre o que se exige
Tende a penar outra vez

A BRIGA MEMORÁVEL

Em 1940 eu ainda morava na Vila Élvio, que naquela época era mais conhecida como “Cama Patente”, local onde se preparava a madeira com bitolas variadas para envio à Matriz, localizada na Ponte Pequena, em São Paulo. Era lá que se faziam as famosas camas da firma Luis Liscio & Cia.
A Vila Élvio era muito movimentada, muitas casas, todas habitadas. Era intenso o movimento de caminhões transportando toras para as duas serrarias que trabalhavam a todo o vapor. Hoje a disposição das casas está mudada. Somente o grande pátio é conservado, porém muito reduzido. Havia um grande armazém naquele pátio, pertencente à firma, local de encontro dos moradores da vila e da periferia, onde era grande a produção de carvão vegetal.
Eu, meninão de 14 anos, trabalhava em diversos serviços, tais como empilhamento de madeira (quadradinhos) preparador de cargas para os caminhões transportadores, balconista e até carroceiro para entregar gêneros alimentícios aos italianos que moravam nas cercanias, todos carvoeiros. Interessados na guerra iniciada em setembro de 1939, não perdiam a oportunidade de exaltar o poderio militar da Alemanha, agora reforçada pela poderosa Itália para combater a Polônia, Inglaterra e França. Comentavam que as forças alemãs e italianas não teriam dificuldade par esmagar os adversários.
Dentre os muitos habitantes da Vila Élvio havia a família Gavião, com os seguintes membros: Salvatino, Benedito, João, além de um adolescente e do Sr. Antonio, o genitor.
Dentre os irmãos, um destoava dos demais, porque não era afeito a pagar as suas dívidas, não sei se por falta de meios ou por ser caloteiro mesmo. Era o mais velho e atendia pelo nome de Salvatino. Dentre seus credores, um se chamava Otacílio, que tinha uma venda no bairro do Lageado, onde Salvatino consumira cerveja por algumas vezes e não se lembrara de pagar a dívida.
O Otacílio, insuflado por amigos mais truculentos, dispostos a dar uma lição no Salvatino, chegaram na Vila Élvio ao crepúsculo e todos se dirigiram ao armazém onde já se encontrava Salvatino tomando cerveja, certamente já meio malhado. Nesse momento começaram as provocações. Além do Otacílio, vieram o Gumercindo, o Simão e um outro cujo nome não mais me recordo.
Eles também começaram a tomar cerveja e a jogar os restos dos copos nos pés de Salvatino, que não reagia por estar acompanhado apenas pelo irmão caçula e adolescente.
Este vendo as provocações, correu avisar e os dois irmãos, que moravam bem perto do armazém. Em questão de minutos chegam os três e começa a briga com armas brancas no grande pátio, onde também se localizava a porta de entrada da minha casa.
Eu, curioso, observava a refrega logo após o anoitecer. Era difícil conseguir distinguir um dos contendores, mesmo porque eu não podia e nem devia ficar muito próximo por questão de segurança.
Finda a briga, o Salvatino estava morto, o Otacílio tinha um pulmão perfurado que jorrava muito sangue. Fora recolhido em minha casa e depois levado para Sorocaba.
Lembro-me o que o Otacílio, conhecido dos meus pais de longa data, disse para minha mãe: “Nunca fiz uma visita para vocês e hoje venho à sua casa para sujá-la”, dada as golfadas de sangue que expelia.
Tão logo ele foi levado, minha mãe e eu tivemos muito trabalho para lavar a sala, onde havia muito sangue.
O Benedito ficou com os intestinos expostos, o Simão com uma espetada na nádega. Que me consta, saíram ilesos o patriarca, Sr. Antonio, o João e o Gumercindo. O Dr. Cipriano, de Piedade, foi contratado para defender a turma do Lageado e o Dr. Ribas, de Sorocaba, veio para defender a família Gavião. Conseguiu-se, não sei de que forma, provar na Justiça que os mortos, Salvatino e Otacílio (que morreu no hospital em Sorocaba) mataram-se entre si, e todos os demais que tomaram parte na luta foram absolvidos. Segundo meu pai, o autor dessa façanha foi o Dr. Ribas.
Findo o julgamento, qual não foi o meu espanto ao presenciar o convite feito pelos envolvidos, de maneira recíproca, para “matarem o bicho”, como se nada houvesse acontecido.
Devo ressaltar apenas que os irmãos e o pai do Salvatino foram pensionistas dos meus pais e foram muito corretos. Que o Sr. Otacílio também era homem benquisto e que, também, nada sei que pudesse desabonar os seus acompanhantes.

A MUDANÇA

Em julho de 1936 nós mudamos do bairro do Campo Verde, município de Ibiúna, para o então chamado Bairro dos Pintos, município de Piedade. Chamaram-me a atenção diversas particularidades, umas agradáveis, outras não. Dentre as agradáveis, cito a quantidade de lambaris grandes e de mandis-chorões existentes no ribeirão que passava nos fundos de nossa casa, onde eu passava muito tempo e de onde retirava a proteína necessária para toda a família. Foi ali que eu aprendi a nadar, a jogar truco com o Eduardinho e alguns de seus irmãos.
Aos domingos, pegávamos uma carona no caminhão do Sr. Amador Pereira, e íamos na venda do Alemão, bairro do Caetesal, onde havia futebol, bocha, baralho, sempre num ambiente festivo.
Dentre as desagradáveis, havia o costume de, na quaresma, reunirem-se diversos rezadores que iam de casa em casa, onde chegavam silenciosamente e entoavam uma oração lúgubre que fazia os meninos como eu tremerem de medo.
Outro fato que me assustava era quando traziam defuntos envoltos em lençóis e transportados em redes, nas quais introduziam um varão que dois homens conduziam. Dada a grande distância entre o sertão e o cemitério da cidade, uma providência precisava ser tomada cada vez que alguém ia prestar contas no Além… Assim, um vizinho do falecido saía de casa cedinho e vinha avisando outros vizinhos ou conhecidos para esperarem no trajeto e colaborarem no transporte, por demais cansativo.
Cumprida a missão, o parente mais próximo do morto convidava todos os participantes para “matarem o bicho” e logo após retornavam aos seus lares. Depois disso havia a novena para encaminhar aquela alma a um lugar santo e definitivo.

O AZARADO

A Vila Élvio do meu tempo, e talvez ainda hoje, não dispunha de saneamento básico, o que constituía um grave problema. Assim, muitas vezes, a solução era apelar para os detestáveis urinóis, esvaziados com certa freqüência. Dentre as muitas casas da vila, morava a dona Rosa, mãe da Jorgina, que namorava com o Antonio, também morador da vila.
Certa noite, dona Rosa estava na casa dos pais do Antonio e a conversa girava em torno da serenata que o Antonio fizera para a Jorgina.
A dona Rosa dizia que se comoveu com a serenata e que a filha homenageada até chorara. O pai do Antonio, enojado com tal tipo de conversa, resolveu sair de casa para espairecer, após ouvir tanta baboseira.
Saiu e passou sorrateiramente rente aos quartos de diversas casas e, inesperadamente, ao passar pela casa do Belmiro, foi premiado com respingos da urina, porque nesse momento a dona da casa esvaziava o urinol.
Meu pai, que trabalhava para a firma, sofrera um acidente e não mais podia fazer serviços pesados. Foi-lhe dada então a função de guarda-noturno das serrarias. Era a época do frio e ele sempre fazia uma pequena fogueira em local adequado.
Ali chegou o nosso amigo. Respingado e com cheiro nauseabundo de amônia contou sua desdita, aproximando-se da pequena fogueira na suposição de que o calor fizesse evaporar aquele cheiro fétido.
Temia voltar logo para casa e ainda encontrar a dona Rosa, que poderia inquiri-lo sobre o que seria mais agradável: ouvir calado a conversa sobre um amor incipiente ou retornar em condição lastimável e mais nervoso.

DECADÊNCIA

Confirmou-se minha cisma
Já não tenho mais carisma
Grande trunfo na paquera
Hoje sinto o gosto amargo
Quando elas passam ao largo
Ou dizem “Esse já era!”

Quando eu tinha muito gás
Não me deixavam em paz
Eu despertava desejo
Naquele tempo distante
Disputado para amante
Tinha mulher de sobejo

Ora não sou mais aceito
E ninguém pode dar jeito
Todos já sabem porquê
Decadente estou também
De partida para o além
Já não pago nem placê

Como o tempo fez miséria
Na minha frágil matéria
Que indefesa se desgasta
Hoje fraco, decadente
Tudo ficou diferente
Só de ver mulher me basta

DOSAR BEM

Saber como bem viver
Já é quase uma ciência
Ouso dar meu parecer
Resultado da vivência

Dinheiro é importante
Mas não é tudo na vida
Por isso é relevante
Saber dosar a medida

Quando o dinheiro domina
Complica a vida no lar
O bom senso nos ensina
Ser preciso meditar

No lar a prole e mulher
Requerem muito carinho
Quem foge desse mister
Está fora do caminho

Daí, então, meu conselho
Lutar mas estar atento
Mirar-se num bom espelho
Faz bem a qualquer momento

Afinar-se com os seus
É elementar ensino
E foi a razão porque Deus
Dotou-nos de muito tino

ESPERANÇA NOVA

Veja aquele ser humano
Viu passar ano após ano
Como se passasse um mês
Acordou tarde, decerto
Se confessou boquiaberto
Quanto amor ele não fez

Hoje já lhe falta gás
Teme então não ser capaz
De tirar tamanho atraso
Mas antes que a vida cesse
É preciso que se apresse
Se breve finda seu prazo

Depois de tanta falácia
Já foi comprar na farmácia
Um remédio de renome
Restaurador de potência
Grande feito da ciência
É “Viagra” o santo nome

Com essa nova esperança
Já sonha com a mudança
Ao tomar o tal remédio
Assim incutiu na mente
Voltar logo a ser potente
E dizer adeus ao tédio

Mas se o remédio-muleta
Não passar de mera peta
Por frustrar a quem precisa
Deixa de tocar no assunto
Considera já defunto
O aparelho que agoniza

Porém se tudo der certo
Do trauma ficar liberto
E nem o carisma perca
Animado então confessa
Vai viver, amar à beça
Pensa até em pular cerca

NOTA: O “Viagra” é um potente remédio surgido após 1990 que dilata os vasos do pênis e assim provoca a ereção para satisfação de muitos homens… e também mulheres

EX-TRABALHADOR

Meu parente que trabalha
Ganha razoavelmente
Eu percebo uma migalha
Passo até por indigente

Não vislumbro para mim
Nada no vasto horizonte
Se continuar assim
Terei por teto uma ponte

Mas isso não faz sentido
Trabalhei por longos anos
Hoje bastante exaurido
Sofro tantos desenganos

Talvez eu descubra asilo
Onde descanse a carcaça
Para então morrer tranqüilo
Depois de tanta desgraça

FÊMEAS

Mulher faz quando lhe apraz
Faça calor faça frio
Outra fêmea satisfaz
Seu desejo só no cio

Mulher faz amor carnal
Mas prefere no aposento
Outra faz ao natural
Alhures e no relento

Na mulher é gravidez
Vai ser mãe, é um direito
Outra fêmea tem prenhez
Isso já é preconceito

Mulher pode dar à luz
Outra fêmea vai dar cria
Mas ambas fariam jus
A trato com mordomia

Se todas cuidam da prole
E muito bem com certeza
Essa missão não é mole
É um dom da Natureza

FRASES SOLTAS

Na letra do nosso Hino
Tem até “herói cobrado”
O letrista foi ferino
Mas não de caso pensado

Relação com heroína
O fato não se esclarece
Se for com droga alucina
Se com mulher, bela messe

A formosa primavera
Conhecida trepadeira
Como se trata de hera
Vai trepar queira ou não queira

Quem procura vagabunda
Tem por mira bunda vaga
Se é vaga não abunda
Mesmo se abunda se paga

Se menina-moça encanta
Mão aberta dá propina
A mão boba não é santa
Porque bolina a menina

Revolução intestina
Aguardo quem me diga
É convulsão palestina
Ou contorção na barriga

GINECOMANIA

Agora sei do remédio
Comum no Oriente Médio
Onde o varão é feliz
Tudo conforme o Corão
Base da Constituição
Que vige em cada país

Ali há leis punitivas
Tem outras mais permissivas
Mas só para quem puder
Sendo que a mais atraente
É para ricos somente
E tem por mira a mulher

Até quatro se permite
Esse então é o limite
Sem contar as concubinas
Terra de machos, portanto
Onde rico não é santo
No conceito das meninas

Em Moçambique também
Que tem posse forma harém
E vai ficar bem servido
Esse país fica perto
Língua comum, tudo certo
É negócio garantido

Por lá se compra mulher
Duas, três, quantas quiser
Um garanhão faz proeza
Certo velho soube agora
Portanto fora de hora
Fosse outrora, que beleza!

Alguém certa vez disse
Aparente gaiatice
Que por achar divertido
Vou registrar nos anais
“Dedos já se tem demais
Pênis um só.” Tem sentido?

IDADE INCERTA

A mulher de certa idade
Nunca tem idade certa
Dizem ser mera vaidade
Que nela cedo desperta

Mas antes de ser adulta
O mentir não tem sentido
Que geralmente resulta
Do longo tempo perdido

Os anos passam e ela
Acha ter vida vazia
Outrora garota bela
Agora já quase tia

Eis o motivo porquê
Cremos na idade que diz
Também compete a você
Crer e fazê-la feliz

IRRESPONSABILIDADE

Quem já viu gravou na mente
Aquele quadro pungente
Dos tais meninos de rua
Culpa de tantos casais
Que por se amarem demais
Vivem no mundo da lua

Um casal sem compromisso
Tem mais prazer no serviço
Que sem rodeios confessa
Já por ter parca cultura
Chega às raias da loucura
Ao gerar filhos à beça

Problema desse tamanho
Parece demais estranho
Acontecer no presente
Se não houver disciplina
Vamos formar outra China
Atitude de demente

Grande culpa tem a Igreja
Se ao rebanho que maneja
Impõe usar a tabela
Mas ai de quem se sujeita
A seguir essa receita
Verá logo a falha dela

Quem não dorme de botina
Com o cônjuge combina
Quando quer gerar um filho
Manda às favas o vigário
Se o clero celibatário
Mais entende de concílio

Qualquer um que sofra dano
Por seguir método insano
Pode ser que até se enfeze
Se vier falar comigo
Sem pestanejar lhe digo
Vá se queixar na Diocese

LAMENTAÇÃO

Sendo pobre aposentado
Digo adeus aos meus passeios
Vivo quase confinado
Porque me faltam os meios

Enfrento tão triste vida
Percebo reles migalha
Pois nunca foi corrigida
Essa descabida falha

Tanto lutei quando forte
Ajudei o país crescer
Mas como não vem a morte
Vegeto para viver

É preciso ter alguém
Ou melhor, um presidente
Que se for homem de bem
Pode mudar o presente

Fará com que a previdência
Corrija esse mal sem nome
Pura questão de decência
Se não morri tenho fome

LUTA INCESSANTE

Por que você se encabula
Ao ver aquela boneca?
Colega de discoteca
Que com o Tonico pula

Entre logo na disputa
Há lugar para mais um
Não vá ficar em jejum
Que só fica quem não luta

Ficar à mercê da sorte
Num canto como covarde
Depois já pode ser tarde
Se agora não se faz forte

É sempre o mesmo processo
Também no viver diário
Só será retardatário
Se gostar de retrocesso

MÊS DE AGOSTO

Eu não sei quem foi que disse
Disparatada tolice
No tocante ao mês de agosto
Não passa de preconceito
De quem falou de tal jeito
Prefiro nem ver o rosto

O falar do mês sem base
É ofensivo que quase
Esqueço meu lado sério
Tolero porque reluto
Mas a tolice que escuto
Soa como vitupério

Se me controlo, garanto
Não por dar uma de santo
Ou que tenha sangue frio
É por ver nesse falante
Que é um ignorante
Não tem lastro, é vazio

Quero então deixar patente
Minha aversão por tal gente
A quem respondo indisposto
Citando como defesa
Que após julho com certeza
É tempo de entrar agosto

MINHA ORAÇÃO

Meu protetor são João
Sempre me deu proteção
Devo-lhe muito portanto
Por isso peço a palavra
E versos de minha lavra
Em seu louvor ora canto

Nesta noite, muito atento
Esquadrinho o firmamento
De imensurável grandeza
Lá, milhares de balões
Muito troar de rojões
Eis a festa, que beleza!

Neste momento agradeço
Mas da forma que conheço
Quem não sabe orar verseja
Assim eu louvo meu santo
E peço, cheio de encanto
Olhe por mim, assim seja

MULHER DE SORTE

Minha mulher é de sorte
Tantos presentes que ganha
Nunca vi dita tamanha
Ontem ganhou carro esporte

Outro fato interessante
Que se tornou rotineiro
É comum achar dinheiro
Relógio, anel de brilhante

Mas a maldosa Marina
Quer denegrir esse fato
Diz que sou muito pacato
A quem a mulher domina

Talvez eu deixe barato
Não gosto de ouvir tolice
Minha mulher já me disse
O que dizem é boato

MULHERZINHA

A Silvana pinta e borda
Só para mim não dá corda
Alega que sou senil
Está por fora a menina
Do avanço da medicina
Que faz um velho viril

Ela de dinheiro gosta
Vou fazer-lhe uma proposta
De viver comigo um mês
Separei nota polpuda
O que certamente ajuda
Para ter a minha vez

Depois disso até garanto
Ela vai me curtir tanto
Que nem pensa em ir embora
Mas para mulher sem classe
Eu logo dou livre passe
Se não sair boto fora

Confesso ser exigente
E quero mulher decente
Para vivência comum
Exijo seja só minha
Em sendo mulher galinha
Prefiro fazer jejum

NEGATIVISMO

Falar demais do passado
Pouco viver no presente
Convém deixar um recado
Não conviver com tal gente

Uma remota lembrança
Até pode calhar bem
Os bons tempos de criança
A boa memória retém

Jamais falar da desdita
Do que já sofreu na vida
Procedimento que irrita
Porque remexe ferida

Ver um futuro risonho
Lindo porvir cor-de-rosa
Ter uma vida de sonho
Cheia de frase amorosa

Quem curtir o negativo
Só traz cheiro de desgraça
Um pensamento nocivo
Enche de fel qualquer taça

Viver, verbo positivo
Desde que viva sem medo
Só poeta primitivo
Fez questão de morrer cedo

NOVO TESTAMENTO

Se ler o livro sagrado
Fuja da parte primeira
Para evitar a canseira
Porque é muito quadrado

Só leia a parte segunda
Tão rica de ensinamentos
Fonte de conhecimentos
Pela clareza profunda

O tão citado Evangelho
Já tem quase dois milênios
Mas como escrito por gênios
É novo ainda que velho

Mas Lucas, Marcos, Mateus
E João, os seus autores
Se mereceram louvores
Devem ao Filho de Deus

O BÓIA-FRIA

Quando o galo canta, fria madrugada
João se levanta e prepara a marmita
Toma café puro, sem leite, sem nada
Ainda no escuro começa a desdita

Pega a condução, enfrenta mais um dia
Já é fim de agosto, o vento matutino
Chicoteia o rosto desse “bóia-fria”
Que sem ilusão encara seu destino

Cansado retorna já quase no escuro
Nunca cessa a luta desse brasileiro
Mal que não contorna, vida sem futuro
É muita labuta por pouco dinheiro

Comenta-se tanto que a reforma agrária
É remédio santo até evita a guerra
Quanto desencanto viver como paria
Neste país de encanto com tanta terra

O FIM É O INSS

É triste mas se envelhece
O Mal-estar aparece
Parte do corpo endurece
Mas outra parte amolece

Bela mulher se oferece
Encabulado enrubesce
E constrangido agradece
Seu órgão não enrijece

Ainda que faça prece
Somente quando amanhece
Tal parte mole entumesce
Pressão da urina, parece

Mas a não ser que se apresse
Nem disso se prevalece
O desalento então cresce
Está no fim, reconhece

Se não quer que a vida cesse
Que mais um tempo merece
Então, enquanto espairece
Apela ao INSS

O LEITO

Não me censure, gosto do leito
Desse direito não abro mão
Meu coração fica satisfeito
Quando me deito, quanta emoção

Foi muita luta sem resultado
Hoje cansado quero sossego
Não tenho apego, sou vacinado
Afastado de qualquer emprego

Agora fujo da vida cheia
Porque chateia quis afastá-la
Gozar a vida sem ter a peia
Que me cerceia e muito me abala

É alta manhã, curto meu leito
Lugar perfeito que satisfaz
Com tanta paz eu tiro proveito
É meu jeito na vida fugaz

Deitar agrada mesmo sozinho
Mas me definho, falta mulher
Caso pudesse tê-la no ninho
Era dar carinho o meu mister

Vou dar viva para minha cama
Lugar que se ama e se faz promessa
Ninguém confessa com quanta chama
Nesse programa a vida começa

CONSTITUIÇÃO

A nova constituição
Teve longa gestação
Mas não pariu coisa boa
Aos amigos eu dizia
Que tal demora valia
A gestação de elefoa

Foi por terra a esperança
Porque foi pouca a mudança
Para tamanha demora
O tempo passa depressa
E muito pouco interessa
Esse trabalho de agora

Quem está comprometido
Seja de qualquer partido
Deve batalhar no posto
Não pode fugir da raia
Assim gente dessa laia
Somente causa desgosto

Sei que cada deputado
Parece meio avoado
Perto de nova eleição
Como só pensa em dinheiro
Não quer descer do poleiro
Mas legislar? Isso não!

NOTA: A constituição vigente desde 1988 não acompanhou a evolução dos tempos e é falha em muitos pontos, não obstante o longo tempo despendido para aprová-la

DESILUSÃO

Os meus olhos rasos d’água
Bem demonstram minha mágoa
Pelo mal que me fizeste
Tinhas vida de opulência
Mas como correspondência
A vergonha me trouxeste

Foste mal-agradecida
Não ligaste para a vida
Que eu procurava te dar
Se queres ter novo ofício
Talvez lá no meretrício
Seja mesmo teu lugar

Tu fazes parte daquelas
Que por fora são tão belas
Mas que não tem conteúdo
Não tens pudor nem vergonha
Pois constantemente sonha
Com belo macho desnudo

Mulher tipo Messalina
Tão devassa e libertina
Nunca vi na natureza
Ora busco namorada
Mas quero seja dosada
Chega de mulher acesa

EMPREGOS

Qual Diógenes lá na Grécia
Fui fazer a peripécia
Munido de lamparina
Procurei quem fosse honesto
Perdi tempo nesse gesto
Não encontrei patavina

O tempo passou depressa
Faltou cumprir a promessa
Feita pelo presidente
Nem me lembro há quantos anos
Um dentre seus vários planos
Era empregar muita gente

Não quero ser pessimista
Mas sob meu ponto de vista
Não cumprirá com certeza
As promessas de comício
Era só um artifício
A mim não causou surpresa

Crer não passa de burrice
Eu mesmo certa vez disse
Mas houve gente que creu
O aumento do desemprego
Belo presente de grego
Todos sabem quem nos deu

Os dez milhões, até mais
Devem constar nos anais
Por ser a maior lorota
Quem creu naquilo que disse
Que reflita na tolice
Erro comum de quem vota

Os 10.000.000 de empregos foram prometidos pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva

ESPERANÇA

Você, jovem deputado
Deve ser capacitado
E lutar como soldado
Em batalha decisiva
Mostre seu patriotismo
Nada de favoritismo
Tirar o país do abismo
Deve ser meta exclusiva

De deputado arrogante
Alinhado, bem falante
Mas de tudo tão distante
Francamente nada espero
Quero quem traga esperança
Que me inspire confiança
Com proposta de mudança
Sem ficar no lero-lero

É preciso dar um jeito
Lutar com amor, respeito
Jamais pensar em proveito
Para si ou para os seus
Se não demonstrar denodo
E somente usar engodo
Ou fingir o tempo todo
Não mais voto, digo adeus

FACEIRICE

Sou de fato introvertido
Fico no canto escondido
Em festa de casamento
Mas todavia acompanho
A exibição sem tamanho
Da mulher em tal evento

Ela por demais faceira
Pode cometer asneira
Para estar em evidência
Os cabelos formam ninho
Com pontas em desalinho
Que mascaram a aparência

Ao cuidar-se com esmero
Chega às raias do exagero
Às vezes por ser teimosa
Fosse menos produzida
Ou, então, bem assistida
Ficaria mais charmosa

Já os homens, entretanto
Que não brilham pelo encanto
Têm calvície prematura
Como há pouco cabelo
É patente o desmazelo
Dada a disfunção sem cura

Uma nova cabeleira
Para cobrir a moleira
Somente se usar hormônio
Mas hormônio feminino
Isso induz a falar fino
Compromete o matrimônio

Avolumam-se os seios
Não existem outros meios
De contornar o problema
É melhor ficar careca
Quem não quer virar boneca
Por tomar medida extrema

FIADOR

Achei até muito cômica
Saber que a Caixa Econômica
A maior, a Federal
Agiu de modo mesquinho
Ao tratar o Zé-povinho
De modo unilateral

Se lá faço uma poupança
Porque quero segurança
Tenho vantagens pequenas
Ela paga baixo juro
Assim fico logo duro
Com meio por cento apenas

Quem vier depender dela
Fica de cor amarela
Até se for avalista
Terá dívida que cresce
Sempre sobe, nunca desce
Até se perder de vista

Com exigências demais
Um martírio dos mortais
Aval só de gente nova
Pois além de certa idade
Só com meios e vontade
Velho não passa na prova

NOTA: Quem tiver idade superior a sessenta e cinco anos não pode ser fiador, ainda que disponha de meios

FRUSTRAÇÃO

Noel, campeão de rimas
Sempre bolou obras primas
Lembradas até agora
Eu quis imitar o estilo
Usei quase meio quilo
De papel que joguei fora

Ser letrista renomado
Já pus a idéia de lado
Nunca fiz nada de bom
A inspiração é de graça
Mas não existe na praça
Porque depende de dom

Embora goste da arte
Desisto de fazer parte
Do ramo tentado em vão
A idade agora me pesa
Talvez um livro de reza
Seja a melhor solução

Sem ter o dom de poeta
Não vou bancar o pateta
Com uns versos pueris
Se não sei passar mensagem
Percebo quanta bobagem
Em tantos anos já fiz

GOZAÇÃO

Aquele meu bom amigo
Não sei se foi por castigo
Mede apenas metro e meio
Mas rir porque não cresceu
Se tinha cartaz perdeu
Além de ouvir nome feio

Ele diz que quer respeito
Então maltrata o sujeito
Que com ele fizer graça
Quem comentar que ele é
Um pintor de rodapé
Sem corretivo não passa

Alguém espirituoso
Falou de modo jocoso
Mas com ar de sapiência
Foi dizer que baixo instiga
Gente grande a entrar na briga
Sendo dele a flatulência

Para que tanta censura
Nem sempre quem tem altura
Chega primeiro no cume
Ele disse, muito astuto
É no frasco diminuto
Que há o melhor perfume

IMIGRAÇÃO

Quando a lavoura pedia
A mão-de-obra mais premente
A escravidão que existia
Acabava finalmente

Assim por necessidade
Começou a imigração
Homens com muita vontade
Chegaram nesta nação

Espanhóis, italianos
Japoneses e outros mais
Vinham anos após anos
Para os grandes cafezais

Essa mistura de gente
Cada qual com seu valor
Foi criando lentamente
Um Brasil multicolor

IRRESPONSÁVEL

Insensato de primeira
Passava por desumano
Sem ter dó da companheira
Tinha um filho cada ano

Em dez anos já com oito
Mas ainda achava pouco
Vivia a pensar em coito
Na sofreguidão de louco

Interrogado a respeito
De como cuidar dos filhos
Disse que Deus dava jeito
Não faltariam auxílios

Mas era falso pedinte
Descarado vagabundo
Fingia e com tal requinte
Enganava meio mundo

E só lamentou uma vez
Foi quando em breve resumo
Culpou o destino que fez
A prole ficar sem rumo

Gerar filhos é gostoso
Um direito consagrado
Mas se só pensar em gozo
Melhor se fosse castrado

Se faltou planejamento
Ou bom senso no começo
Da vida fez um tormento
Já que tudo tem seu preço

LASCÍVIA

Como era exótica
Aquela Mônica
Além de erótica
Nada Platônica

Era assas ávida
Por amor prático
Gosto fanático
De viver grávida

Não tinha lógica
Nem mesmo nexo
Se até com cólica
Fazia sexo

Corpo frenético
Calor vulcânico
Causava pânico
Ao macho atlético

MÃE

Mãe, nove meses de espera
Depois disso não tem paz
Se para o filho que gera
Vida afora tudo faz

Mãe é amor e carinho
Solicitude e desvelo
Até fica em desalinho
Por exceder-se no zelo

Mãe ao filho é ligada
Quer vê-lo sempre contente
Não lhe deixa faltar nada
É proteção permanente

Mãe é devota enfermeira
Que vela o filho doente
Sempre a melhor companheira
Além de ser confidente

Mãe é palavra que encerra
Toda a forma de bondade
Nada pode haver na terra
Com tamanha santidade

Mãe é ser quase divino
Cujo proceder encanta
Assim eu fiz este hino
Para louvar essa santa

MEU AMIGO

És meu amigo certo
Em horas incertas
Sempre estás por perto
E me desapertas

Porém nesta hora
Tudo o que me fez
Pago sem demora
Chegou minha vez

Sempre tive em mente
Em dada emergência
Contar com parente
A dar assistência

Errei, pois parente
Mesmo o mais querido
É imposto à gente
Jamais escolhido

Meu melhor amigo
Tu não tens defeito
Contarás comigo
És aqui do peito

MEU PROTETOR

Ao meu São João querido
Agradeço comovido
A constante proteção
Como reconhecimento
Expresso meu pensamento
Nos versos desta canção

Foi precursor de Jesus
Onde passou deixou luz
Por de Jesus falar tanto
Como bom desbravador
Soube lutar com ardor
Esse meu querido santo

Dia vinte e quatro à noite
Mesmo que o vento me açoite
No desconforto do inverno
Vou festejar com prazer
É o que devo fazer
Em meio muito fraterno

Como é meu protetor
Peço-lhe certo favor
Que preciso no dia-a-dia
Só quero paz e saúde
Alguma luz que me ajude
Para bolar poesia

MINHA ROSA

A Rosa chamo de flor
Tão bela qual outra rosa
Confesso morrer de amor
Por aquela flor mimosa

Rosa para mim é tudo
Nunca vi mulher mais bela
Aquela tez de veludo
Em tom tendente à canela

Penso que seja destino
Já programado no além
Só mesmo o Poder Divino
Para me dar esse bem

Mulher para mim só ela
Homem para ela só eu
Sou feliz ao lado dela
Linda Rosa Deus me deu

MULHER DESPUDORADA

Fogo morro acima
Água morro abaixo
Fêmea a fim de macho
Não há quem reprima

Mulher bem casada
Fez triste papel
Flagrada em motel
No jeito, pelada

Ao sair da linha
Por mera aventura
Mostrou que figura
É a tal galinha

Era bem amada
Tida por feliz
Assim mesmo quis
Ser mais avançada

A bem da verdade
Aquela infiel
Foi lá no motel
Mas passou vontade

Ciente o marido
Da estória completa
Aquele pateta
Não quis dar ouvido

Tem o sangue morno
O fato revela
Se vive com ela
Não passa de corno

Marido pacato
Mulher liberada
Estou na jogada
Como candidato

Nota: O fato ocorreu com uma vizinha que se enamorou de outro vizinho e marcavam encontro em certo motel. A mulher do adúltero, alertada, armou uma arapuca e flagrou a rival completamente nua, fato comprovado por testemunhas. O marido, ciente do ocorrido, perdoou a traição e vive com ela.

NAMORO DESFEITO

Você disse que me quer
Afirmou ser a mulher
Que vai me fazer feliz
Mas faz tempo que não creio
Até já me sinto cheio
Não confio no que diz

Agora já me convenço
Que nosso namoro tenso
Não dará bom resultado
Saiba que duro com duro
Não fará jamais bom muro
Diz um antigo ditado

Vamos acabar agora
Que piora se demora
O malfadado namoro
Seu jeito de mulher-macho
Quer me usar como capacho
Não tolero desaforo

A vida é muito curta
De morrer ninguém se furta
Então procuro outro bem
Suponho que penso certo
Quero já mulher por perto
Estar só não me convém

NEGÓCIO RENDOSO

Refleti a noite inteira
Na procura da maneira
De bom ganho no dia-a-dia
Mas tão logo amanheceu
Um estalo aconteceu
Descobri ser padaria

Nesse ramo de negócio
Não preciso nem de sócio
Eu conheço muito bem
Posso errar contra o freguês
Por dois pães eu cobro três
É assim que o lucro vem

Qualquer norma desconheço
Aprendi a fazer preço
E trabalho do meu jeito
Mesmo que tenha tabela
Sem alarde fujo dela
Pouco lucro não aceito

Mas confesso vacilante
Embora ganhe bastante
O serviço já me esgota
Por isso penso na venda
E depois viver de renda
Que hoje dá polpuda nota

NOTA: Era tamanho o entusiasmo de um parente afim ao montar uma padaria que deu azo para se tecer comentários jocosos.

NUDEZ PARCIAL

É século vinte e um
Por isso é tão comum
Ver belo corpo despido
Mas há um tabu porém
Criado não sei por quem
Que parece descabido

Mormente na mulher linda
Desagrada mais ainda
Ver o nu só no traseiro
Ninguém falou todavia
Que causa mais alegria
Ver o nu mas por inteiro

É fonte de desalento
Ficar na TV atento
E não ver o que deseja
Como não se vê a frente
Deixa de ser coerente
É bom que tudo se veja

A parte mais escondida
Será sempre requerida
Não precisa ter vergonha
A nudez tão natural
Esconde-la até faz mal
É com ela que se sonha

O CABELO LONGO

Menina linda de rosto
Tem cintura de modelo
Mas ver aquele cabelo
Isso me causa desgosto

Mantém horrorosa trança
Que solta chega à cintura
Para a bela criatura
Está vedada a mudança

Ela precisa ter vez
Nunca tolher a vontade
É jovem e tem vaidade
Porque Deus assim a fez

Uma atitude maldosa
Do criador de tal seita
Se quem o belo respeita
Quer a mulher mais formosa

Para mulher duro freio
Ao varão a liberdade
Ele dono da vontade
Ela é paria no meio

Mas onde se discrimina
O machismo é perfeito
Querem sustar o direito
De a mulher ser feminina

O GARANHÃO

Você fala com ardor
Do quanto gosta da cama
Assim já bolou o programa
Para viver só de amor

Quisera como tem dito
Fosse a noite permanente
Ter a parceira mais quente
Esse é o requisito

Então só no pólo norte
Lá tem a noite polar
Onde se pode provar
Que é um macho bem forte

Em grande parte do ano
Com um frio desolador
Não gela o fogo do amor
Embora gele o oceano

O MAL MENOR

Nem tudo o que ela me faz
Vai me tornar infeliz
Razão porque tenho paz
Não ligo para o que diz

Alegou como verdade
Que tenho costume feio
Querer muita intimidade
Daí me por a escanteio

Porém é pura balela
Refuto e falo sem pejo
Ela nem era donzela
E sim escrava do desejo

Hoje estou mais sossegado
Por fugir da ação funesta
De viver discriminado
Por um enfeite na testa

CONVERSA MOLE

Alguém perto dos setenta
Fala que não se agüenta
Ouvir somente besteira
Cheio de pé-de-galinha
A comentar quando tinha
Mulheres dando canseira

Hoje se diz desgastado
Só dá conta do recado
Porque dosa muito bem
Nada mais além de três
No longo prazo de um mês
Mas antes era de cem

Se tem alento garanto
Não ser motivo de espanto
Nem sei porque da falácia
Como o “Viagra” aciona
O aparelho funciona
Basta comprar na farmácia

Assim se tira proveito
Porque não há outro jeito
Tão natural como outrora
É bom não tocar trombeta
Quem precisa de muleta
Nunca tanto quanto agora

Nota: O “Viagra”, potente remédio em forma de comprimido, criado em 1998, tem por finalidade provocar a ereção ao redor de uma hora e trinta minutos após a ingestão.

DESISTÊNCIA

Falaste em bom português
Que não sabes o que queres
Comigo não tens mais vez
Ainda se me quiseres

Se pensas em aventura
Eu concordo, tudo bem
Mas para união futura
Que loucura… Não convém

Atento ao cotidiano
Muitos anos de janela
Não vou cometer engano
Dar tema para novela

Se não queres um consorte
Nem pensares no futuro
Namora, então, por esporte
Qualquer moleque imaturo

Como sei bem o que quero
Por ter idade bastante
Falo franco, sou sincero
Contigo, só como amante

ENGANO

Há tipos de anomalia
Que ao bom senso desafia
E passa despercebido
Calejado pelos anos
Vejo então quantos enganos
Sei que tenho cometido

Uma vez certo rapaz
De fala mansa e loquaz
Disse a que veio afinal
Bolara o melhor negócio
Mas precisava de sócio
Com polpudo capital

Era golpe com certeza
Que aplicou com ardileza
Neste crédulo patinho
Levei dura cabeçada
Reduzido a quase nada
Aprendi errar sozinho

Na terça-feira de entrudo
Boquiaberto fiquei mudo
Ao rever o tal escroque
Sambava muito garboso
Com jeito assas duvidoso
Metido num rosa-choque

ESTUDO AVANÇADO

Em casa de conhecido
Eu falava da libido
Muito liberada agora
Lembro-me de até ter dito
Que copular tinha um fito
Mas deixou de ter agora

Expunha meu pensamento
Quando de certo aposento
Ouço voz com nitidez
A desculpa me foi dada
Um filho e a namorada
Estudavam português

Essa versão não aceito
Um quarto dispõe de leito
Então já se desconfia
O rapaz pensa que engana
Português? Uma banana
É aula de anatomia

Falar ser outra matéria
Só mesmo como pilhéria
É motivo para riso
Não se estuda desse jeito
Quarto é lugar perfeito
Para perder o juízo

FALSO PATRIOTA

Se fosse Gonçalves Ledo
Patriarca da nação
Certamente bem mais cedo
Tinha fim a escravidão

Mas foi José Bonifácio
Tido como patriarca
Elitista de palácio
Conseguiu deixar sua marca

Tempo de politicagem
Tudo a favor da nobreza
Por isso faltou coragem
Talvez sobrasse moleza

Mas para o negro sofrido
Não lutou para mudança
Mais uma vez esquecido
Sem um raio de esperança

Assim precisa cuidado
Ao ler façanha de herói
Porque o estudo acurado
Muitas lorotas destrói

FIM DE ANO

Confraternar, que utopia
Difícil de conceber
Se não é a cada dia
Então é para inglês ver

Suportar tal fingimento
Dose forte, cavalar
Com o meu temperamento
Não devo participar

Acompanhar tal orgia
Nessa farra de noitada
Que num chute tudo esfria
E muitas vezes por nada

Há parecer diferente
Dos que curtem bom jantar
Que sorvem festivamente
Grandes vinhos de além-mar

O tempo depressa passa
Quem bebeu demais discute
Se pensa na nova taça
Aceita bem novo chute

FUMANTES

Quem é fumante sonha
Deixar de vez o vício
Mas teme por vergonha
De fraquejar no início

Não passa de bobagem
Essa avidez da massa
Nesse prazer selvagem
De aspirar a fumaça

Que faz mal à saúde
Ninguém hoje ignora
Tomar uma atitude
Requer certa demora

Forte vício e por isso
Difícil de deter
Se quem lhe é submisso
Fuma sem perceber

Não vejo quem impeça
Esse prazer que ilude
O ciclo recomeça
Em cada juventude

GRANDE GANHO

Penso em criar um negócio
Que não precise de sócio
Nisso refleti bastante
Enfrento tudo sozinho
Quero tratar com carinho
Tudo o que levo adiante

Confesso estar pensativo
Embora me julgue vivo
Percebo certo embaraço
Se decidir pela venda
Lá vem o Imposto de Renda
E leva grande pedaço

Talvez a solução seja
Montar atraente igreja
E dar um pomposo nome
É negócio lucrativo
Por sinal muito emotivo
Que fé o povo consome

Outro fato que me atrai
É ter proteção de pai
Do Ministro da Fazenda
Posso fazer pé-de-meia
Ele jamais me chateia
Não cobra Imposto de Renda

As ofertas vêm a rodo
Sempre mais o tempo todo
Que outras igrejas levanto
A quem fizer gorda oferta
Eu garanto rota certa
Já na condição de Santo

Mas aquele mão-fechada
Vezeiro em não doar nada
Sequer o dízimo paga
Mando para Satanás
Como cá não satisfaz
Lá no céu cancelo a vaga

IMPREVIDÊNCIA

Alta noite em qualquer canto
Há um casal que se espreme
A cena provoca espanto
Um puritano ao ver treme

Ele quer prova de amor
A mulher mais comedida
Mas diz adeus ao pudor
Já na segunda investida

Instinto já saciado
O rapaz desaparece
Ela teme o resultado
E faz fervorosa prece

Não se deve arriscar tanto
Quando quer sair da linha
É tão barato, garanto
O preço da camisinha

JAZEU

Começa pela carícia
Se ficam a sós os dois
É já parte da delícia
Daquilo que vem depois

Se nem com tanta canseira
Teve pique para o ato
Então é fim de carreira
Melhor nem falar do fato

A desculpa cabeluda
Já não convence a ninguém
Ele precisa de ajuda
Seja daqui ou do além

Tantos dizem haver meio
De resolver com remédio
E nunca mais fazer feio
Nem ter que fugir do assédio

O remédio por ser caro
Não é para qualquer um
Mas se faltar tal amparo
Queira ou não fará jejum

Precisa cuidar depressa
Por certo dará trabalho
Quando o problema começa
Não existe quebra-galho

LEI BURRA

Este país continente
Parece estar em recesso
Nunca tem bom presidente
Nem operoso congresso

O brasileiro mais pobre
É quem tem filhos demais
Nunca se faz lei que cobre
Maior controle dos pais

Para cada nascimento
Premiar parece estranho
Até causa desalento
Burrice desse tamanho

Com muita politicagem
A gente já desconfia
Ser a tal lei da vantagem
Praticada no dia-a-dia

Agora já é demais
Licença ao pai do rebento
Que nos momentos finais
Teve grande sofrimento

Se cada filho que nasce
Vem bom dinheiro na mão
Terá sempre quem abrace
Tão gostosa profissão

Nota: Lei da vantagem refere-se a famoso Jogador de futebol que, ao fazer propaganda de certa marca de cigarros dizia: “Eu gosto de levar vantagem em tudo”.

MARAJÁ BRASILEIRO

A Índia tinha marajá
Já não há isso por lá
Aqui não acabará
Há muito que o mal existe
É aberração sem nome
Que muitos milhões consome
Enquanto tantos têm fome
Deixa muita gente triste

Dos nossos representantes
São poucos os atuantes
Muitos são inoperantes
Nunca pensaram na gente
Enquanto a nação espera
Por lei bastante severa
Quem é marajá prospera
Mas pária morre indigente

Por muitos anos a fio
Não surge quem tenha brio
Parece só ter vadio
No nosso legislativo
Assim ninguém mais agüenta
E quem tem pelo na venta
Já porque não parlamenta
Com razão fica agressivo

MEU AMOR

Você que muito me ama
Fato que a todos confessa
Então, porque não se apressa
Em vir comigo na cama?

Desejo afagá-la tanto
Como normalmente faço
Curti-la no meu regaço
Boneca cheia de encanto

Então achegue-se a mim
Você é meu grande amor
Nunca me deu dissabor
Mas agora fica assim

Se perdurar essa teima
Deixo de estar a dispor
Seja lá para o que for
Até para guloseima

MEU SONHO

Nunca passei de operário
Vivi sempre de salário
Jamais fiz questão de horário
Emprego traz segurança
Enfrento duro batente
Mesmo assim vivo contente
Levo a vida sorridente
Mas nutro certa esperança

Pretendo ser deputado
Porque já tenho notado
Que é bem remunerado
Sequer exige presença
Enquanto nada acontece
A gente quase enlouquece
Nesta luta que só cresce
E com pouca recompensa

Após vencer o mandato
Eu me aposento de fato
Nossa lei feita no trato
Ao deputado compensa
O povo que me elegeu
Um mês depois esqueceu
Das promessas vãs que eu
Muito fizera no início

Ir a Brasília uma vez
Só em cada fim de mês
Buscar o cheque talvez
Seja o maior sacrifício
Tudo na vida tem fim
Mas é por pensar assim
E tendo pena de mim
Penso nesse novo ofício.

MISCELÂNEA

Tem que nascer em Cristo
Para entrar no paraíso
Fato que provoca riso
E deixa o templo malvisto

Ao subir na hierarquia
Nas entrelinhas se vê
Por dominar o á-bê-cê
Bem merece uma franquia

A mulher vira pastora
Até bispa chega a ser
Basta o dom de convencer
Ter carisma de oradora

Bispa talvez como chiste
É neologismo puro
Mas traz retorno seguro
Sabe clamar em tom triste

Apóstolo também tem
Agora passa dos doze
Conseguiu com muita pose
A distinção lhe faz bem

Para atrair certa gente
Encavalada no muro
Só há um modo seguro
Que force entrar novo crente

Seita de pomposo nome
Mas agora mesmo assim
Muitos não estão a fim
Que ninguém ora com fome

Esse castigo severo
Talvez não mais aconteça
Alguém de grande cabeça
Já decretou “Fome Zero”…

Nosso então presidente, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva lançou o programa “Fome Zero” mas o resultado parece pífio.

MULHER FOGOSA

Faz tempo, já nem me lembro
Se foi no mês de setembro
Talvez fosse outro qualquer
Tenho certeza porém
Eu falava com alguém
Ao ver aquela mulher

Um mal estar reprimido
Já por ser introvertido
Não fiquei bem à vontade
Era demais o embaraço
Foi por isso passo a passo
A conquista da beldade

Logo mais chega o momento
Do esperado casamento
Foi pomposo, quanta festa
Mas já no primeiro ano
Percebi com desengano:
Um calombo aqui na testa

NÃO SE ACOMODE

Quem fez promessa ao seu santo
Em troca de sacrifício
Não se acomoda num canto
À espera do benefício

Quando vê que o tempo passa
E não recebe o favor
Um mau pensamento grassa
Contra o santo protetor

Mas ele não é culpado
E sim quem fez o pedido
Se não agir de seu lado
O santo nem dá ouvido

Quem quiser algo do além
Que peça, mas colabore
Do contrário nada vem
Ainda que grite e chore

NOITE DE AMOR

Antes que você se deite
Ao meu lado aqui na cama
Mostre então como se ama
Ao fazer o que deleite

Peço pois, minha querida
Que venha, mas por favor,
Completamente despida
Predisposta para o amor

É mister amar com classe
Nesse enlevo consentido
Muito prazer dividido
No folguedo face a face

Vamos viver para nós
Ao fazer amor à beça
Bem melhor fazer sem pressa
O que fazemos a sós

O ADULTÉRIO

Convocado por sorteio
Para o corpo de jurado
Estreante nesse meio
Eu dei conta do recado

No banco o réu, moço forte
Transido de dor imensa
Fora autor de dupla morte
Espera pela sentença

Conheci bem o seu drama
Um assunto muito sério
O ter flagrado na cama
A mulher em adultério

Transtornado ao ver os dois
Isso nunca imaginava
Não deixou para depois
Honra com sangue se lava

Um tiro só foi bastante
Deu fim ao par enlaçado
Prova que vida de amante
Não vale vintém furado

Então em seu julgamento
Repensei muito a respeito
E no final inocento
A lei me dá tal direito

Mas o réu tem consciência
Que no decorrer dos anos
Chega às raias da demência
Por ceifar seres humanos

O COLORIDO

Quem quer ver “aquilo roxo”
Sem bom preparo da mente
Acha feio, meio frouxo
Visto assim tão de repente

Quer roxo, branco, vermelho
Mesmo preto ou amarelo
Olhar eu só aconselho
A quem acha “aquilo” belo

Pode ser “aquilo roxo”
Ou mesmo de qualquer cor
Em repouso, quase chocho
Não parece ter valor

Mas encostado naquilo
Desajeitado, discreto
Em aparente cochilo
Algo roliço, quieto

Nesse estado desatento
Nem a cem graus ele aquece
Mas conforme o pensamento
Em segundos ele cresce

É pena ser passageira
Esse apogeu da grossura
Mas mesmo assim a parceira
Aproveita enquanto dura

NOTA: O ex-presidente Fernando Collor de Melo disse certa vez que para determinada atitude era preciso ter “aquilo roxo”.

O GOLPE

Minha despensa ficou vazia
Pela magia do presidente
Indiferente nessa tosquia
Causou sangria, cortou bem rente

Por lutar tanto na minha vida
Foi mais sentida tal atitude
Mas nada pude contra a mexida
Que decidida não há quem mude

Após o golpe ficou bem claro
Que paguei caro pela boa fé
Sendo que até gente sem preparo
Por ter bom faro comeu filé

Até por mania em tudo creio
Porém receio levar rasteira
A brincadeira me deixou cheio
Esse bloqueio já deu canseira

O meu dinheiro requer estorno
Farei suborno se for preciso
Mas com juízo peço retorno
Esse transtorno me deixou liso

Sou partidário do manifesto
Como protesto da ação funesta
Muito indigesta, é desonesto
Só ficou resto no fim da festa

NOTA: Foi conseqüência do bloqueio das finanças depositadas, decretado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo nos idos de 1990. Assim procedeu, dizendo que só tinha uma bala na arma. Essa atitude causou grande transtorno a muita gente.

O MENOR

O menor faz o que quer
Se tudo lhe favorece
Até mata se quiser
Porque nada lhe acontece

Nem ser crescido precisa
Para ceifar uma vida
Já que qualquer cara lisa
Bem pode ser homicida

Mas quem em auto defesa
Cismar em meter-lhe a mão
Terá com toda a certeza
A mais dura punição

Quem já tem catorze anos
Entende tudo o que faz
Se pratica atos insanos
É porque isso lhe apraz

A solução do problema
Depende de nova lei
Se vão mexer no sistema
Não será logo, bem sei

Onde reles vagabundo
Tem qualquer vida na mão
É melhor ser cão no mundo
Que viver num mundo cão

CORPO FECHADO

A Vera quer meu sumiço
Por desistir do namoro
Agora, por desaforo,
Tentou lançar-me feitiço

Esteve em certo terreiro
Para pedir minha morte
Mas meu santo é mais forte
São José, o carpinteiro

Não temo nenhum malfeito
É bom ela saber disso
Em mim não pega feitiço
Tudo o que vem eu rejeito

Sempre que encontro um despacho
Eu chuto sem ter receio
Não sei se porque não creio
Ou sou mesmo muito macho

DESPUDORADA

Vivo a sonhar acordado
Com a vizinha do lado
Talvez por mera burrice
Até meu pai já me disse
Para esquecê-la de vez

Não sei porque quando a vejo
Sinto tamanho desejo
De tê-la na intimidade
Ela por pura maldade
Mostra-se em meia nudez

Desse jeito não aturo
Vou transpor aquele muro
E o resultado prevejo
Ademais com tanto ensejo
Provocação tem limite

Mas antes desse repente
Procuro meio decente
Para me aproximar dela
Ela me dá tanta trela
Estou louco de apetite

ENTÃO SUMA

Se há tempos de bonança
Há outros de temporais
Por isso nossa aliança
Fica abalada demais

Talvez algum empecilho
Impeça ser diligente
Só cuida do nosso filho
Comigo tão displicente

Dilapida o quanto ganho
Vive a criar embaraço
Procede de modo estranho
Até me fez de palhaço

Se você tiver em mente
Não me querer por consorte
Deve falar francamente
Que lhe darei passaporte

Como está já não convém
Demonstra que não me ama
Se não posso ser seu bem
Então suma desta cama

EX-LAVRADOR

Recorro ao Pai, meu Senhor
Preciso de paz e alento
Neste crucial momento
Da pressão de vil credor

Chego às raias da loucura
Por pouco não enlouqueço
Soube ter caído o preço
Do que colhi com fartura

Pungido por grande dor
Ao banco pago com terra
E nesse momento encerra
Um sonho de lavrador

Tal solução descabida
Revolta quem é da roça
Forçado a deixar a choça
Em busca de nova vida

Por quanto tempo não sei
Vamos ter tal injustiça
Talvez por mera preguiça
Nunca se fez sábia lei

Enquanto falta vontade
Aos responsáveis omissos
As favelas e os cortiços
Vão se expandir na cidade

FEITIÇARIA

Fazer mal-feito bem feito
Por feiticeiro perfeito
Muitos falam a respeito
Mas não devem crer no efeito

Um mal-feito não aceito
Impede possa haver jeito
De alguém sofrer contrafeito
Esse feitiço suspeito

Há porém crente a despeito
De o censo mais escorreito
Ser descrente do sujeito
Sempre de baixo conceito

Nunca foi dado o direito
Ao ser também com defeito
Cheio de panca e de peito
Engane em próprio proveito

FINAL FELIZ

Vivi no meio rural
Meu trabalho era brutal
Que retornava quebrado
Após ano e meio a fio
Sempre de bolso vazio
Fiquei muito revoltado

Queria mudar de vida
Encontrar uma saída
Mudar de situação
Fiz então um juramento
De ganhar o meu sustento
Independer de patrão

Aos poucos criei coragem
Então fui comprar passagem
E parti para a cidade
Até bela moça rica
Deu-me força além de dica
Para a nova atividade

Lutei, fiz economia
Muitas vezes nem comia
A luta foi gigantesca
Mas venci, graças a Deus
Agora também os meus
Curtem sombra e água fresca

FUTURO RISONHO

Se no futuro eu for rico
Certamente aqui não fico
Sonho com bela fazenda
Bem formada, com represa
Para curtir a beleza
E ter de quebra uma renda

Construir minha vivenda
Com galpão para moenda
E muito caldo de cana
Feliz, deitado na rede
Lá mesmo mitigo a sede
No bom suco da caiana

Ao meu lado uma gaiola
Tem aberta a portinhola
Que detesto malvadeza
O passarinho liberto
Canta feliz ali perto
No meio da Natureza

Assim terei vida mansa
Trabalhar? Isso me cansa
Também não me faz feliz
À tarde, quando refresca
Vou me divertir na pesca
Dos ariscos lambaris

Mas para ter vida plena
Só depende da morena
Que tem olhos cor de jade
Quando ela disser sim
Não caibo dentro de mim
De tanta felicidade

HORA TEMIDA

Bebo comedidamente
Também como com critério
Mas sem levar muito a sério
Eis meu modo inteligente

Às vezes fujo da linha
Pois como o que mais agrada
Até mesmo feijoada
Com bons tragos de caninha

É assim que levo a vida
Sem temer pelo futuro
Se não há jeito seguro
Para a tal hora temida

Há tempos assim procedo
Hoje perto dos oitenta
Já penso até nos noventa
A viver sempre sem medo

Jamais vou temer a morte
Encará-la não me custa
Mas a tantos ela assusta
Dizem ser falta de sorte

Nada levo tão a sério
Que vida ninguém garante
Se nem dieta constante
Livra alguém do cemitério

INFÂNCIA

Quinze anos vivi na roça
Descalço, meio desnudo
Minha sola de tão grossa
Desdenhava espinho agudo

Perambulava na mata
No campo, na capoeira
Tomava banho em cascata
Em ribeirão, corredeira

Frutos diretos do pé
Avidez por mel silvestre
Sempre encontrei meu filé
Tinha faro de cão-mestre

Bicho-de-pé, carrapato
Pium e bicho cabeludo
Eram problemas de fato
Mas eu contornava tudo

Na pesca da taraíra
Sem condição aparente
Mesmo com linha de embira
Ninguém me fazia frente

Hoje me vem a saudade
Daquele tempo risonho
De tanta felicidade
Que agora parece sonho

JURAMENTO

Pinga não quero nem pura
Também não a misturada
Cumpro firme minha jura
Desde que dormi na estrada

Já passei por prova dura
Amanheci só de cueca
Eis que nessa conjuntura
Podia até virar boneca

Aprendi ser comedido
Em tudo o que faço agora
Se fiquei quase despido
Foi por ter dormido fora

O viciado assegura
Ter a pinga uma virtude
Que se for tomada pura
Traz alegria e saúde

No frio ela dá calor
Já no calor refrigera
Mas não tem esse valor
Quem bebeu demais já era

Tem que se levar em conta
Bebum logo cai no sono
Outro perigo que afronta
É ter um bumbum sem dono

LIÇÃO DE VIDA

Lutador de capoeira
Está sujeito a rasteira
Ela faz parte do esporte
Mas em outra profissão
Cair e beijar o chão
É preferível a morte

Para qualquer ser humano
Um possível desengano
Fere de modo profundo
Mas o bom não desanima
Já que a vida só termina
Para quem deixar o mundo

Neste palco de peleja
Não vem nada de bandeja
Para quem quedar passivo
A prova pode ser dura
Mas com jogo de cintura
Sai vencedor quem for vivo

Uma vida de amargura
Tem gente que não atura
E baixa as armas, fraqueja
Mas isso é covardia
Enfrentar essa porfia
Faz parte de tal peleja

É denominado forte
Se desafiar a morte
Na batalha pela vida
Só quem tem perseverança
Espera pela bonança
Retoma a rota perdida

Aqui fica esta mensagem
De fé e muita coragem
Como requer o bom senso
Belo preceito divino
Quem treinar desde menino
Reterá tesouro imenso

MENTIRA PIEDOSA

Há gente que pouco pensa
E sem razão faz ofensa
Porque não fala mentira
Mas quem é inteligente
Tem preparada na mente
Bela frase que não fira

Assim se cruzar agora
Com a beldade de outrora
Hoje arremedo de gente
Não desiluda a coitada
Diga que traz estampada
A graça de antigamente

É mentira caridosa
Que deixa a mulher vaidosa
Pelo feliz galanteio
Não fale a rude verdade
Quando até por piedade
Faz bem usar este meio

Sendo, porém inquirido
Até mesmo compelido
A dizer tudo o que sabe
Fale com toda a franqueza
Mas não use de rudeza
Essa maldade não cabe

Sugiro que não se faça
Qualquer maldade de graça
Não lhe deram tal direito
É melhor ser comedido
Nada custa ser polido
E surte melhor efeito

O viver bem nos ensina
Ser preciso disciplina
Em tudo o que se fizer
Lição de grande valia
A praticar cada dia
Ao se lidar com mulher

MEU CORAÇÃO

Meu coração musculoso
Nunca se mostrou bondoso
Já que não tem sentimento
Ele só bombeia sangue
Pode até ficar exangue
Eu preciso estar atento

Eis a razão porque penso
E desta vez me convenço
Ter coração sem virtude
Por amor sei que não bate
Tem bela cor escarlate
Mas difere por ser rude

Órgão vital, importante
Mas por labor incessante
Pode parar sem motivo
Se tal desgraça acontece
Tudo no corpo fenece
Ele não dá prévio aviso

Vou consultar o esculápio
Dar um trato no cardápio
Quero manter boa saúde
Mesmo com tanto cuidado
Logo mais estou deitado
De pés juntos no ataúde

MINHA FLOR

Disseste que meu jardim
Contém as flores mais belas
Porém tu és para mim
Muito mais bela que elas

Acalentas justo sonho
Também queres ser feliz
Eis porque então proponho
Sejas minha… que me diz?

Vem florir a minha vida
Com tanta beleza e amor
Assim, em contra-partida
Tratar-te-ei como flor

Para que sofrer sozinha
Sem curtir nosso momento
Minha vida se definha
Se por ti vivo sedento

MOÇA FOGOSA

Linda moça não se exponha tanto
Senão garanto que logo cai
Que desespero curtir em pranto
Um filhinho que não diz papai

Interessada no piquenique
Foi na conversa do namorado
Tomou bons tragos, foi muito chique
Mas agora pesa o resultado

Moça moderna, até precavida
A proteção com certeza tinha
Por não ter controle na bebida
Nem sequer lembrou da camisinha

Para sozinha criar o filho
Certamente será uma barra
Embora sem precisar de auxílio
Ficou bem caro o preço da farra

MULHER GALINHA

Pensei que fosses só minha
Isso sempre repetias
Mas foste reles galinha
Que sem razão me traías

Sabias quão eras cara
Ainda assim me traíste
Tens a meu ver rara tara
Eis que meu brio tu feriste

Reles galinha que canta
O galo que te depara
Ainda finges de santa
Não tens vergonha na cara

Doravante não te quero
Prepara-te logo e some
És a mulher nota zero
Não deves usar meu nome

Não passas de meretriz
Exerce então tal ofício
Quem sabe serás feliz
Quando chafurdar no vício

NÃO SOU TESTEMUNHA

Se bateu na minha porta
Com ares de catequista
É favor que não insista
Para testemunha morta

Além do mais, é bem certo
Falar sem ter estrutura
É temerosa loucura
Se não tem mestre por perto

Pensar que a literatura
Está debaixo do braço
Para mim só traz cansaço
Quando vejo essa figura

Citar passagem divina
Com a panca de profeta
É dar uma de pateta
Não é assim que se ensina

NOVO AMOR

A Laura não mais me quer
Como tortura essa dor
A cura requer mulher
Não sei viver sem amor

Já é demais para mim
Famoso namorador
Ser abandonado assim
Como traste sem valor

Mas vou lutar por parceira
Até penso a quem aspiro
É linda, rica, solteira
Moça que muito admiro

Além de tudo bem nova
Ela precisa ser minha
Já sonhei tê-la na alcova
Travestida de rainha

Vou devagar na conquista
É o bom senso que ensina
Sendo o primeiro da lista
Sonho em ganhar a menina

O APAGÃO

Eis que a chama bruxuleia
Até encanta a paveia
Que gira ao redor do lume
Eu,porém, por mais que tente
Ter lamparina na frente
Vai provocar-me queixume

Espevitar o pavio
É função que desafio
Estar alguém tão disposto
Quem disser que gosta disso
E assume tal compromisso
Demonstra muito mau gosto

Lampeão ou lamparina
Nenhum deles ilumina
Tiveram sua vez outrora
Mas hoje não há razão
De falar em apagão
Assunto comum agora

Apaguei do meu registro
O nome de tal ministro
Que no cargo continua
Deixou de ser previdente
Por isso ficou patente
Faz jus ser posto na rua

Nota: O então ministro das Minas e Energia, José Jorge, não previu a necessidade de investir em hidrelétrica no fim do milênio.

O DIA DA CAÇA

Temos de evitar perigos
Na curta vida que passa
Veja o caso dos amigos
Acuados como caça

O fato ocorreu bem perto
Com gente de queda rara
Cuja mira era por certo
Matar bela capivara

Mas saíram pelo cano
Passaram por dissabores
Caçados por um baiano
Correram os caçadores

Todos muito bem armados
Para à caça darem cabo
Porém foram debandados
Pondo entre as pernas o rabo

Bico calado portanto
Ninguém mais fala no assunto
Como o sufoco foi tanto
O caso cheirou a defunto

O INATIVO

O inativo tem em mente
Um sonhado objetivo:
De viver intensamente
Prêmio por ficar cativo

Mas a condição primeira
Para quem queira ter ócio
É manter cheia a carteira
Com dinheiro sai negócio

Mas antes dele a saúde
Item de grande valor
Que dá toda a plenitude
Seja lá para o que for

Inativo mas com vida
Cor-de-rosa, sim senhor
Gastar a força contida
Principalmente no amor

O MIGRANTE

Há tempos vim do nordeste
Daquele inferno da peste
Onde a seca fez morada
Trabalho por lá não tinha
Se tivesse não convinha
Trabalhar por quase nada

Eu plantava e não colhia
A dispensa já vazia
Era grande o desatino
Saí de lá meio duro
Mas tinha fé no futuro
Que sonhei desde menino

Vim com São Paulo na mente
Na capital do batente
Era certo ter trabalho
Mas parece até feitiço
Se só consigo serviço
Na base do quebra-galho

Talvez agora eu progrida
E possa ganhar a vida
Em trabalho que dá pé
Antes que fique de tanga
Penso vender bugiganga
Ali na Praça da Sé

OMISSÃO

Não pecar por omissão
Isso jamais se admite
Errar também tem limite
Eis a primeira lição

Encavalar-se no muro
Como azular, dar sumiço
É bom que se saiba disso
Pode pesar no futuro

Mas quem pecar por ação
Não importa a gravidade
De acertar tinha vontade
Errou, merece perdão

Se o povão não tem direito
De pecar por omissão
Para político então
É o mais grave defeito

Há outro tipo de gente
Que peca por ambição
Mesmo sem ter instrução
Consegue ser presidente

Refere-se a sindicalista para quem o Sindicato serviu de trampolim

PALAVRAS COMPOSTAS

É chamado de PÃO-DURO
O avarento, MÃO-FECHADA
Que nem sendo PÉ-DE-BOI
Vira dono de boiada

RABO-DE-GALO, bebida
PÉ-DE-CABRA, ferramenta
Um passa por MATA-BICHO
Mas outro destrói, arrebenta

Belo é o LUSCO-FUSCO
Mormente em BRAÇO-DE-RIO
Ouvir o SAPO-FERREIRO
Ver vaga-lume no cio

PÉ-DE-COELHO dá sorte
E BOCA-DE-LEÃO, flor
BOCA-DE-SAPO traz morte
VIÚVA-NEGRA, terror

Não fazer CAMA-DE-GATO
Fugir de BOCA-DE-FUMO
Preferir COLCHÃO-DE-NOIVA
Bolo fofo, SUPRA-SUMO

Não pode o PESO-PESADO
Lutar com um PESO-MOSCA
Nem há PORCA-BORBOLETA
Que aperte LAGARTA-ROSCA

Não se vê PÉ-DE-GALINHA
Em qualquer CARA-DE-PAU
Nem é com anzol e linha
Que se pesca bacalhau

Evitar ARRANCA-RABO
Fonte de QUEBRA-CABEÇA
Não aponte o FURA-BOLO
Nada faça, tudo esqueça

PRESIDENTE IDEAL

Como novo presidente
Só com vontade e firmeza
Faço este povo contente
Com mais pão em cada mesa

Vou garantir preço justo
Ao lavrador esquecido
Quase sempre compelido
A vender aquém do custo

Quero atacar muitos flancos
Onde existam marginais
Desde colarinhos brancos
Traficantes, tantos mais

Agirei qual empresário
Ao manter controle austero
Tesouro com numerário
Além de inflação a zero

Mas que bobagem eu disse
Se nunca vou ser eleito
A causa desta tolice
Foi por dormir de mau jeito

PROVAÇÃO

Alguém pensa ser castigo
Mas francamente não ligo
O que pensa quem me vê
O meu viver tem sentido
Porque passo o recebido
Mas nunca exijo cachê

Quanta coisa nesta vida
Foge de qualquer medida
Para uns, fardo medonho
Mas o meu parece leve
A passagem para breve
Até confundo com sonho

Há quem tenha pena dura
Que suporta com bravura
Seja lá qual for a prova
Se lhe falta braço ou perna
O Pai que tudo governa
Vai conceder vida nova

É bom que ninguém se iluda
Pois nem reza forte muda
O castigo a quem merece
Se tem saldo negativo
Não será nenhum ser vivo
Que melhore pela prece

Essa lei mais que perfeita
De tão simples não aceita
Nenhum tipo de manobra
Quem deve paga por certo
Burlá-la nem por esperto
É a lei maior que cobra

Quem aqui só faz o bem
Não tem receio do além
Tudo dá certo no fim
Se faz mal ao semelhante
Precisa sofrer bastante
É divino ser assim

QUANTA SUJEIRA

Um borracho quando nobre
É diferente do pobre
Que é borracho também
O nobre é divertido
O pobre, vil pervertido
Um mero joão-ninguém

Também quem tem alto posto
É cidadão de bom gosto
Tudo o que faz é perfeito
O pobre, reles plebeu
Porque escreveu mas não leu
Já não merece respeito

Esse arraigado conceito
Nunca vai mudar de jeito
Porque não se perde o pejo
Hoje até um presidente
Tem método diferente
Ao saciar seu desejo

Parece não ser normal
O gosto por sexo oral
Ocorrido com a Mônica
Ela manteve o segredo
Talvez por um certo medo
Da malhação pela crônica

Alguém com muita janela
Aposta que a chupadela
Feita com muito prazer
Quer lá fora, quer no leito
Não incrimina o sujeito
Se nem a faz conceber

O resquício do expelido
Deixou marca no vestido
Que agora sumiu de vez
Mas outrora ela ciosa
Zelou da mancha leitosa
Em preito àquele que fez

Outras vezes com certeza
Repetiram a proeza
Desse ato diferente
Mas agora um promotor
Cheio de falso pudor
Quer cassar o presidente

Mas ele muito contente
Confessa ser inocente
E tem motivo que anime
Segundo língua ferina
Aquela bela menina
Já cuspiu a prova do crime

QUE MULHER

Percebi, infelizmente
Que não te interesso mais
Razão de estar diferente
Comigo, até com teus pais

Antes eras diligente
Tudo fazias com brilho
Agora tão displicente
Mal cuidas de nosso filho

Se vida livre tu queres
Sejas franca e some agora
Que não me faltam mulheres
Assim que fores embora

Sempre cumpri meu dever
Inclusive o de marido
Como queres te perder
Parte senão eu te agrido

Se gastas todo o que ganho
Produto de tanta luta
Provocas rombo tamanho
Some já, filha da puta

RECUSA FORMAL

Recusei a candidatura
Uma bela sinecura
Mas não quero envolvimento
Confesso, não tenho jeito
Se tentasse e fosse eleito
Trocava a paz por tormento

Temo fazer papel feio
Não entendo desse meio
Nem aceito tal trabalho
O que faço é bem feito
Razão porque não aceito
Se não sou de quebrar galho

Muitos não pensam assim
Sabe-se estarem a fim
De mordomia permanente
Nenhuma constituição
Seja de qualquer nação
Porá freio nessa gente

RELIGIÃO

Vocês se dizem ateus
Têm a morte como fim
Outros não pensam assim
São os tementes a Deus

Crer no Juízo Final
Ou na reencarnação
Quem afirmar ter razão
Não passa de radical

A comentada questão
Sobre a vereda correta
Só mesmo quem for profeta
Pode dar a solução

Para evitar desavença
É bom fugir do problema
Basta adotar como lema
Só crer em Deus, não na crença.

SANTO ANDRÉ

Ano de quarenta e três
Em abril precisamente
Cheguei como muita gente
Disposto a ficar de vez

Se documento não tinha
O futuro brasileiro
Precisava de dinheiro
Eis a razão porque vinha

Foi muito duro o começo
Porém quem tem muita fibra
Jamais se desequilibra
Nem teme qualquer tropeço

Estudar quase não pude
Fato que tanto deploro
O tempo qual meteoro
Passou deixando-me rude

Mensalidade barata
Nem assim aproveitei
Pela mancada que dei
Não passo de autodidata

Há muito tempo inativo
Mas tenho vida folgada
Porque não me falta nada
E me conservo bem vivo

Quero viver mais uns anos
Já programei minha vida
Que por ora a despedida
Está fora dos meus planos

Nesta terra de trabalho
Para mim lugar bendito
Que deixo escapar meu grito
De “Viva João Ramalho”

João Ramalho foi o fundador de Santo André, cidade do ABC, Estado de São Paulo

SER DO CONTRA

Quem pratica o contrabando
Por nadar contra a maré
Sabe que de vez em quando
É pego no contrapé

E sendo a contravenção
Um ato contra-indicado
Vive nessa contramão
Quem é contra as leis do Estado

Se luta contra a corrente
Encontra caudal imenso
Ato contraproducente
Ou melhor, é contra-senso

Não atende contrafé
Por ser contrário a depor
Precisa então dar no pé
Arma de contraventor

Mas se agora contrafeito
Por contragolpe constante
Se pensa em mudar de jeito
Seja contra traficante

SOU FELIZ

Se ontem me julguei feliz
E hoje me sinto também
Amanhã tudo me diz
Mais feliz vou ser, Amém

Ser feliz muito depende
Da maneira de viver
Eu penso que Deus atende
Quem luta por merecer

Assim gravo na memória
Nunca temer pela falha
Pelejar pela vitória
Já que começa a batalha

E se desse modo penso
Preciso deixar de lado
Aquela falta de senso
Presente no meu passado

Inimizade, ganância
Mentira, inveja, egoísmo
Pessimismo, intolerância
Arrogância, despotismo

Também luxúria, avareza
E muitos que não citei
Talvez por mera afoiteza
Ou porque não me lembrei

TRÊS ITENS

Dinheiro, mulher, bebida
São coisas boas da vida
Mas precisa dosar bem
Escolher a três por dois
Saberá logo depois
Que o critério não convém

Quem preferir o dinheiro
Não passa de interesseiro
Só lhe convém a bolada
Tão natural no avarento
Chora ao comprar alimento
Porque gastar desagrada

Se preferir a mulher
Vê-se não ser um qualquer
Pois prima pelo bom gosto
A verdade salta à vista
Não é comum quem resista
Ao contemplar belo rosto

Se preferir a bebida
Não passa de suicida
Ela mata, ninguém nega
Vai ficar na horizontal
Assim a espinha dorsal
Nunca se sobrecarrega

Ao pensar bem a respeito
A tudo se tem direito
Basta dosar bem agora
Bebida só raramente
Dinheiro o suficiente
Mas mulher a qualquer hora

VELHO DEMAIS

Com sessenta e cinco anos
Não têm mais vez os humanos
Que moram neste país
Em matéria de finanças
Tratados como crianças
Às vezes como senis

Outro dia certo parente
Precisava de repente
De alguém para fiador
Não lhe fiz a gentileza
Nem pude virar a mesa
Por ser velho sem valor

Ao comprar algo barato
Eu poderia de fato
Bancar aquela fiança
Porém eu já não servia
Tinha idade que impedia
Quem é velho agora dança

Mas o meu grande pecado
Foi já ter ultrapassado
O limite a mim imposto
É triste saber agora
Que já fui jogado fora
Isso me causa desgosto

VIDA DURA

Lá no estádio a bola rola
O meio de campo embola
Quem torce não se controla
Com tanta raiva contida
Em casa o caçula amola
O maior foge da escola
Tido como rei da cola
O pai quer uma saída

Lá na roça a seca assola
O lavrador se consola
Pensa até pedir esmola
Lamenta a safra perdida
Se qualquer empresa esfola
Quem quiser viver rebola
Padece mas se controla
Enfrenta os males da vida

O pior eu soube agora
Minha mulher sem demora
Pretende me dar o fora
Vou curtir a solidão
Pensei tivesse direito
Mas parece não ter jeito
Ela quer tirar proveito
Exige gorda pensão

VIDA NOVA

Não quero viver na roça
Na pobreza da palhoça
Sem um conforto qualquer
É triste a luz da candeia
Que só polui, não clareia
Viver assim ninguém quer

Depois de tanto desgosto
Levantei-me já disposto
A deixar aquela choça
Se quem me retinha, a Flora
Resolveu me dar o fora
Para aumentar minha fossa

Larguei tudo ao vir embora
Nem mais penso nessa Flora
Que atrasou minha partida
Agora aqui, bem distante
Tenho mulher cativante
Que fez brilhar minha vida

VOU PARA LONGE

Com inflação galopante
O meu dinheiro evapora
Sou forçado a ir embora
Para o Canadá distante

No grande país do norte
Sem inflação como o nosso
Viver lá eu sei que posso
Se lá tem moeda forte

Não falo inglês nem francês
Línguas daquele país
Estudar eu nunca quis
Falo mal o português

Mas corro buscar o ouro
E quem tem vontade vence
Só de dólar canadense
Quero formar um tesouro

Então com o bolso cheio
Vou regressar sossegado
Com os papéis do mercado
Sei que completo o recheio

O PRECONCEITO

No Brasil não há racismo
Falava com ufanismo
Determinado sujeito
Na verdade não existe
Há porém algo mais triste
Que se chama preconceito

É comum a tanta gente
Na linguagem corrente
Glosar os de pele escura
Quem faz isso não atina
Com esse mal de rotina
Que ainda agora perdura

Gente branca que se manca
Nunca diz “tem alma branca”
A negro de bom conceito
A cor por si não enseja
Certos dons que se deseja
Ao definir o perfeito

Ser negro, amarelo, branco
É melhor que eu seja franco
E diga tudo o que sinto
Em sendo gente de bem
Tem tudo o que nos convém
Seja branco, até retinto

O TEMIDO SATÃ

Não posso crer em satã
Nem hoje nem amanhã
Mesmo se tiver cem anos
Cada vez mais me convenço
Que basta usar o bom senso
Para livrar-se de enganos

Um convincente pastor
Seja de que seita for
Trabalha com muito afã
Jamais creio no que prega
Ninguém me incute fé cega
Por medo do tal satã

O pastor diz estar certo
Que para ficar liberto
do satã, nessa peleja
Precisa além de temente
Tornar-se o mais eminente
Colaborador da igreja

Se deixar de ser freguês
O pastor mais uma vez
Vai prever o fogo eterno
Ele diz ser milagreiro
A quem dá muito dinheiro
Barra o caminho do inferno

OS ÍNDIOS

Índios nos confins da mata
Por sorte ninguém contata
Razão de serem felizes
Ainda conservam pura
Aquela bela cultura
Que tem profundas raízes

Aqueles aculturados
Pensam ser civilizados
Mas se nota a diferença
Dos brancos pegam os vícios
Que só trazem malefícios
Como bebida e doença

Já desde o Brasil colônia
Os brancos sem parcimônia
Invadiam qualquer taba
Esse povo brasileiro
Tinha fim no cativeiro
Inclusive o tubixaba

A missão religiosa
Uns dizem ser caridosa
Outros não pensam assim
Onde chegam os pastores
Chegam tantos dissabores
É o começo do fim

PAVIO CURTO

Certa vez fiquei nervoso
Não só por já ser idoso
Mas por um fato abusivo
Bela garota fingia
Que simplesmente dormia
No banco do coletivo

Fiquei muito revoltado
Porque vi bem ao meu lado
Onde a moça nem olhava
Um letreiro sugestivo
Garrafal, bem incisivo
Que um quase cego notava

Só se fosse analfabeta
Para agir como pateta
Ao manter tal postura
Eu não quis deixar barato
De repente fiquei chato
E a lição que dei foi dura

Eu defendo meu direito
E por isso não aceito
Nenhuma ação de má fé
Quando alguém não sai por bem
A loucura já me vem
Penso em ja dar pontapé

POETAÇO FOLGADO

Eu, feliz aposentado
Vivo sempre sossegado
Nesta maré de bonança
E talvez por causa disso
Esqueço até compromisso
Que de pensar já me cansa

Tenho razão para tanto
Na vida só vejo encanto
Estou sempre rindo a toa
Vivo de bem com o mundo
Vagueio qual vagabundo
Só sinto que o tempo voa

Quando recebo missiva
Com mensagem afetiva
Saio da minha modorra
Mas não respondo na hora
Só após longa demora
Ainda que o tempo corra

Hoje meio combalido
Não vejo muito sentido
Na vida que levo agora
Se já me julgam senil
Por deixar de ser viril
Bom é partir sem demora

PRETENSÃO

Marli garota formosa
Todos a chamam de fofa
Alcunha muito maldosa
Porque fofa é balofa

Em garota tão enxuta
Que até esbanja atrativo
Vale fazer a permuta
E adequar-se o adjetivo

Garota com quem me afino
Que tantos sonhos embala
Confesso, por desatino
Também ousei disputá-la

Tinha intenção muito nobre
Ela porém não me quer
Disse julgar-me tão pobre
Que não atraio mulher

PROVÉRBIOS

Em briga de marido e mulher
Não se deve meter a colher
Procurou sarna vai se coçar
Ser prevenido vale por dois
Para não se arrepender depois
Nenhum partido deve tomar

Como cada povo tem seu uso
Também cada negra tem seu luso
Tudo é questão de preferência
No escuro tanto vale a rainha
Ou mesmo a negrinha da cozinha
O momento dita a preferência

Ficou chato este mundo redondo
Parece ninho de marimbondo
Está cada dia mais violento
Ao simples dá-cá-aquela-palha
Surge pretexto para batalha
Mundo louco de sangue sedento

Rico bêbado é divertido
Pobre bêbado é pervertido
Mormente se for arruaceiro
Maldita água-que-boi-não-bebe
Nela o pau d’água nem se percebe
Mas vai queimar saúde e dinheiro

É grave o problema dos menores
Tido mesmo como dos maiores
Promiscuidade, prostituição
Sem rumo a menina perambula
E diz sem pejo em linguagem chula
Dinheiro na mão, bunda no chão

Para burro velho, capim novo
É voz corrente de qualquer povo
É bom ouvir depois esquecer
Um velho viver com mulher nova
Certamente não passa na prova
Tem o livro mas não pode ler

QUANTO MEDO

Nesta vida muito louca
Não se dorme mais de touca
Assim pensa a maioria
Enfrentar a algofobia (medo de dores)
Fonte de nosofobia (medo de doença)
Já é penosa agonia

Às vezes se tem presente
Um vislumbre de valente
Mas é pura fantasia
Logo cessa a euforia (sensação de bem-estar)
E vem a monotonia (sensaboria, insipidez)
É por tanatofobia (medo da morte)

Não se tem fé no futuro
Nunca se julga seguro
Fase de grande apatia (estado de insensibilidade)
Como não vê melhoria
Está sujeito à fobia (medo mórbido)
Que leva à pantofobia (medo de tudo)

Mas é bom ficar bem claro
Para quem já tem preparo
Não querer tanta mania
Nem ter antropofobia (medo de seres humanos)
É só ginocofobia (medo de mulheres)
Quando houver ninfomania (tendência nas mulheres para abuso do coito)

QUERER DEMAIS

Moça do tipo faceiro
Sonhava com um marido
Abonado, fazendeiro
Alto, loiro, bem-nascido

Inteligente, cordato
Forte, saúde perfeita
Tolerante, bom de trato
Tendo tudo o que deleita

Passado o primeiro ano
Depois dele mais uns dez
Resolveu rever o plano
Que só lhe causou revés

Hoje até comerciante
Seria bom candidato
Mas continuou pedante
Procedimento insensato

Agora já quarentona
Aceita qualquer partido
Desgastada, já na lona
Lamenta o tempo perdido

REFLEXÃO

Quando penso no tempo decorrido
Sinto no coração tanta amargura
Uma vida requer tenha sentido
Sugere o criador à criatura

Quanto tempo gastei nesta existência
Em formular projetos sem valor
Mas nunca dei vazão à competência
Ainda que dotado de pendor

Mas quem é jovem tende ser assim
Com vida colorida, uma beleza
Da falha percebi quase no fim
Assim acordei tarde, que tristeza
Se batalhei na vida por quimera
Retroagir no tempo, quem me dera!

RETORNO FELIZ

Deixei no campo o meu amor
Fui trabalhar na cidade
Lá suportei tanta dor
Senti demais a saudade

Agora um tanto abatido
Retorno para meus pagos
Repor o tempo perdido
Com muitos beijos e afagos

Mas foi mesmo por um triz
Que não perdi tal fofura
Agora sim sou feliz
Por ela tenho loucura

Além de bela, a ternura
Daquela voz de veludo
Ó meu Deus, quanta ventura!
Ao seu lado tenho tudo

SAPATO FOLGADO

Sobre sapato folgado
Além de certo limite
Depois de tanto palpite
Um de valor me foi dado

Quem o deu foi minha fã
De só usá-lo no frio
Enchendo o espaço vazio
Com dupla meia de lã

Agora está resolvido
Em mais de oitenta por cento
Aquele aborrecimento
Do bom dinheiro perdido

O pé merece respeito
Então ao comprar sapato
Agora lembro do fato
Que também pé tem direito

Para que ter pé enfermo
Se sabe que isso aborrece
Assim quem sofreu conhece
Não fica no meio termo

SINCERIDADE

Não me condenes por ser sincero
Mas a verdade deve ser dita
Tudo acabado não mais te quero
Embora sejas muito bonita

Viver a dois é bem diferente
Muita rotina, pouco lirismo
Não nos convém como a tanta gente
Manter os laços por moralismo

Como não temos um dom divino
Em nosso meio tão egoísta
Se nos casarmos, que desatino
É sofrimento a perder de vista

Pareço duro no meu juízo
Mas é melhor terminar assim
Por que sonhar com o paraíso
Se vês o inferno perto de mim?

Está tão claro que o resultado
Passada a fúria, depois de um mês
Qualquer de nós maldizer em brado
A desgraça que a burrice fez

SOU OUTRO

Eu quis afogar a mágoa
Causada pela Clarice
Sem escolher melhor água
Fui cometer a burrice

Bebi a que boi não bebe
Fez mal à minha saúde
Mas muita gente concebe
Ser normal tal atitude

Desisti dessa loucura
Para banir a desgraça
Existe meio de cura
Sem a maldita cachaça

A minha cura, confesso,
Foi dar a volta por cima
A mágoa faz retrocesso
Para quem a subestima

Não aceito mais desgraça
Seja de que tipo for
Se tudo na vida passa
Também passa o dissabor

TRIBUTO

Elegi um deputado
Mas o vejo acomodado
Não tem projeto de lei
A razão não sei dizer
Por preguiça penso ser
Nesse voto sei que errei

Há quanto tempo proponho
Bolar a lei do meu sonho
Que nem precisa de emenda
De dar fim a privilégio
Fazer igreja ou colégio
Pagar Imposto de Renda

É um grande disparate
Que nosso povo combate
E não aceita por certo
Precisa haver justiça
Se faltar ou for omissa
Há um esperto por perto

Então por que se condena
Um devedor peso-pena
Que tenta burlar o fisco
Ele tem razão de sobra
Se do peixão não se cobra
Que fique em paz o marisco

Enquanto aquela igreja
Não importa qual que seja
Estiver livre de imposto
Muitos vão morrer de fome
Religião ninguém come
Nem mesmo é tira-gosto

Democracia, um bem
Que para todos convém
Se aplicada com critério
Mas aqui ela foi feita
Em favor de qualquer seita
É de dizer impropério !

VENENO LENTO

Veneno de efeito lento
Prazer para tanta gente
Que não mede o sofrimento
Do viciado em aguardente

Mas antes da ação nefasta
Desajusta o viciado
Porque devagar desgasta
E torna o fardo pesado

Sugiro, até aconselho
Fugir sempre da bebida
Basta ver, há tanto espelho
Muita gente em fim de vida

Mas quem bebe é teimoso
Nem crê no que se lhe diz
Acha o produto gostoso
Com ele se diz feliz

VIDA EFÊMERA

Se a vida fosse tão boa
Deus não deixaria a morte
Que leva até o mais forte
Pois a todos a hora soa

Nada vale se algo tem
Como saúde e riqueza
Virá a vez, com certeza
De ajustar contas no além

Apodrece que dá dó
O corpo na terra, inerme
Um mero pasto de verme
Até reduzir-se a pó

Lembrado de modo terno
Se acaso deixou saudade
Mas se só causou maldade
Que pague a pena no inferno

VISITA DOMINICAL

Certa manhã de domingo
Pela cortina distingo
Um casal no meu portão
Ao soar a campainha
Tive certeza que vinha
O assunto religião

Ver de relance já basta
Se cada um porta pasta
Não pode haver melhor pista
O motivo sei qual é
Sem saber da minha fé
Querem vender a revista

O preço a mim não assusta
Mas confesso que me custa
Atender aquela gente
Mesmo assim com muito jeito
Digo que se não aceito
É por ser ímpio somente

Ao mentir, a razão disso
É não querer compromisso
Nem mesmo por um segundo
Já que mal contenho o riso
Se dizem que o paraíso
Será neste pobre mundo

NOTA: Refere-se a certa religião em que seus sectários são convidados ou oferecem-se para fazer o trabalho de campo que consiste em visitas para exposição de credo e, principalmente, vender revistas e livros.

XAVECAGEM

Prometeu tem que cumprir
Ajoelhou tem que rezar
Ofereceu tem que dar
Errou precisa assumir

Não cumprir o que promete
É procedimento feio
Combina belo passeio
E dá sumiço, derrete

Assim perde a confiança
Para que fazer promessa
Sabe que vai pregar peça
E o convidado só dança

Como nada se aproveita
Não se deve dar ouvido
Pois corta largo o tecido
Mas faz costura estreita

Para falar francamente
Ouvir lero-lero cansa
Quem age como criança
Não sabe, mas é doente

Dentre tantos que não cito
Acho grave tal defeito
Precisa mudar de jeito
Boca aberta atrai mosquito

O PREGADOR

A Isabel e Zacarias
Deus disse por afeição
Não terminarem seus dias
Sem terem filho varão

Nasceu então João Batista
Tudo conforme previsto
Porque já se tinha em vista
A vinda de Jesus Cristo

Andou por lugar incerto
Desempenhou seu papel
Muitas vezes no deserto
Comeu gafanhoto e mel

Muito grande esse João
De Cristo primo segundo
Trabalhou com devoção
Para melhorar o mundo

Lá no Rio Jordão distante
O preferido e benquisto
Teve que ser batizante
Do querido Jesus Cristo

Foi grande arauto de Deus
Mostrou o caminho decente
Para nobres ou plebeus
A lei não é diferente

Salomé bela rainha
Detestava o bom censor
Pela dura ladainha
Sobre mulher sem pudor

Por viver maritalmente
Com certo rei seu cunhado
O proceder indecente
Foi por João criticado

Assim no primeiro ensejo
Planejou a morte do justo
Tinha o macabro desejo
Não importava a que custo

Na festa de aniversário
Essa mulher emotiva
Em deslumbrante cenário
Foi cruel e vingativa

A cabeça de João
Exigiu como troféu
O mártir por vocação
Está com Cristo no céu

O TROVADOR

Hoje, dezoito de julho
É dia do trovador
Eu que produzo bagulho
Não dou o devido valor

Se não consigo entender
A mensagem do poeta
Já vi que dom não vou ter
Sou mesmo grande pateta

Quem do berço traz o dom
Porque já veio fadado
Certamente será bom
Dará conta do recado

Mas eu me vejo sem clima
Se nem em prosa transmito
Escrever versos com rima
Só de pensar fico aflito

Tento fazer algo sério
Queimo de fato a pestana
Rabisco, digo impropério
E nada sai de bacana

Se vejo um trabalho pronto
Julgo também ser capaz
Tento criar, mas sou tonto
Bobagem qualquer um faz

PAI INESQUECÍVEL

Meu pai partiu desta vida
Sem tempo de despedida
Foi tudo tão de repente
Fato que quando acontece
A gente quase enlouquece
O golpe dói duplamente

É duro aceitar a morte
Mormente quem não é forte
E carece de coragem
Procuro ser ponderada
Lamento apenas, mais nada
A dolorosa passagem

Mas a morte não é fim
Aprendi pensar assim
É lenitivo, conforta
Estou certa de que Deus
É pai que cuida dos seus
E vai me abrir nova porta

Assim espero que em breve
Meu fardo se torne leve
E minha dor tenha fim
Perder alguém muito caro
Sem o devido preparo
Pesa demais para mim

Descobri porém um jeito
Além de simples, perfeito
Que me traz consolação
O recurso que me acalma
Ao lembrar daquela alma
É fervorosa oração

Ao pedir que Deus o tenha
Na mente se me desenha
Um quadro que me deleita
Vejo meu pai por instante
Feliz, face radiante
Pela oração bem aceita

NOTA: Em atenção ao apelo de certa mulher do interior, tentou-se minorar-lhe o desespero com a poesia

PESCARIA

Não vou pescar na represa
Fisgar tilápias pequenas
Se à beira-mar, com certeza,
Fisgam-se belas morenas

Confesso a você amigo
O que prefiro pescar
E sem delongas lhe digo:
Peixões que beiram o mar

Alimento de primeira
Faz muito bem à saúde
Até já tenho maneira
Mas que a muitos desilude

Sem ter anzol preparado
De mãos vazias regresso
Passo porém no mercado
Peixe nobre faz sucesso

PRIVILÉGIO

Deus após fazer o mundo
Disse a quem ouvir quisesse
Que faria uma benesse
Ao poeta mais fecundo

Dentre muitos eu também
Sem pedir fui contemplado
Desde então caí no agrado
Cumprido certo porém

Ajudar sempre que posso
Não ter a língua ferina
Nunca cometer rapina
Dividir bem o pão nosso

Instruiu-me sem escola
Deu-me saúde e dinheiro
Para chutar-me o traseiro
Basta só pisar na bola

PROVOCAÇÃO ATROZ

Deixou de usar porta-seio
Quer despertar o desejo
Ao descobrir melhor meio
Para mostrar-se sem pejo

Parece ficar mais linda
Ao libertar os mamões
Colírio que cura e brinda
Os olhos de mil varões

É certo que tem em mira
Quando tudo tremelica
Ver o macho ficar gira
E quem está vivo fica

Do que nos passa na mente
Ela finge que não sabe
Mas quer provocar a gente
Direito que não lhe cabe

Talvez não seja maldade
Se pensa ficar só nisso
Ela também tem vontade
Se não fosse o compromisso

Animal quando no cio
É fase de cruzamento
O humano com seu feitio
Em dois meses faz um cento

QUASE

Cabisbaixo, pensativo
Ando como morto-vivo
Atravesso triste fase
Há dias um caminhão
Que vinha na contramão
Não me atropelou, mas quase

Um violento estampido
Ouvi de tiro perdido
Que me fez tremer na base
Como tenho santo forte
Bafejado pela sorte
Não fui ferido, mas quase

Estive muito doente
Mas lutei que sou valente
Herói como camicase
Mesmo nas garras da morte
Joguei fora o passaporte
E não sucumbi, mas quase

Meu xodó tem pá virada
Mas não me deixa por nada
Embora sempre me arrase
Ontem, então, fez de tudo
Mereceu forte cascudo
Que não desferi, mas quase

Ao ver a mulher bonita
Que passou fazendo fita
E me disse bela frase
Cantei-a na caradura
Ela com muita ternura
Não quis dizer sim, mas quase

QUERO SER ÚTIL

Meu sonho desde menino
Era ser mestre de ensino
Nasci com esse pendor
Mas para filho de pobre
Alcançar alvo tão nobre
Requereu muito labor

Profissão nada atraente
Afugenta muita gente
Bem chegada ao vil metal
Nunca pensei desse jeito
Dava-me por satisfeito
Viver por um ideal

Nela o que ganho mal cobre
Os meus dispêndios de pobre
Mas presumo que sou útil
Ganhar dinheiro à mancheia
Pensar só no pé de meia
É ter uma vida fútil

NOTA: Trata-se de um filho que abraçou o magistério, mesmo sabendo quão difícil seria a vida de professor no Brasil

REGIME POLÍTICO

Quem for presidencialista
Precisa dizer porquê
Faz o que quer, ninguém vê
É regime comodista

Como parlamentarista
Um ministro réu confesso
Logo cai pois o congresso
Tem cartão azul a vista

No parlamento moderno
Não pode ter falcatruas
Quem faz uma não faz duas
Assim até eu governo

Dói ver um país gigante
Deitadão eternamente
E o povo ainda consente
Nem sequer faz um levante

Penso que um golpe profundo
Ao dorminhoco desperte
E quem sabe se converte
Em até primeiro mundo

RETRATO

Dois irmãos além da irmã
Sempre tenho na lembrança
Até sei cada manhã
Que fará cada criança

Para a escola o Iberê
Tão logo rompe a alvorada
Já firme no ABC
Nunca perde aulas por nada

Bem depois surge o Cauê
Levantou meio ensonado
Pensamento na TV
Quer ver desenho animado

Terceira e menor, Iara
Acordou com a zoeira
Vem chorando, logo pára
Basta ver a mamadeira

Mas agora a noite avança
E cansados da folia
O feliz trio descansa
Esperando novo dia

Os pais labutam bastante
Para cuidar bem dos seus
Mas assim levam avante
A missão dada por Deus

Poesia dedicada a seus netos do interior quando eram pequenos

SEJA PRECAVIDA

Garota alegre, formosa
Com a vida cor-de-rosa
Tenha prudência e cautela
Quem faz essa advertência
É alguém com sapiência
Por já ter muita janela

Não se empolgue se o rapaz
Muita tentativa faz
Na bela fase de idílio
Se você não for de fibra
Logo se desequilibra
É candidata a ter filho

O parceiro deu sumiço
Você nem pensava nisso
Mas sempre termina assim
Naqueles tempos de farra
Você não pensou na barra
Que sempre pesa no fim

SONHO FELIZ

A noite passa depressa
Hoje brincaram à beça
Nada mais querem agora
Estão em sono profundo
Sonham com o belo mundo
Do faz de conta lá fora

Logo mais clareia o dia
Recomeça a estripulia
Nem se pensa no amanhã
É agora que os petizes
Brincam, brigam, são felizes
Tudo fazem com afã

Infância, fase que passa
Florida, com tanta graça
Sempre cheia de bonança
Todos nós temos na mente
Mesmo de modo latente
Um resquício de criança

TRABALHO CANSA

A filha de meu vizinho
Nem sabe fazer café
Até parece que é
Fritadora de bolinho

A genitora defende
Diz que é tempo de ludo
A seguir já vem o estudo
Trabalhar depois se aprende

Diz ser a filha tão nova
Dezenove anos somente
Logo mais pega o batente
E passa fácil na prova

Bobagem, mera tolice
Deveres do lar se ensina
Ainda quando menina
Isso muita gente disse

O namoro é precoce
Logo após a puberdade
É quando vem a vontade
Do que é bom para a tosse

Há fatos que não têm nexo
Se o trabalho sempre cansa
Quem quer passar por criança
Não devia fazer sexo

UM QUARTETO

A noite aos poucos avança
Escura de causar medo
Um quarteto já descansa
Depois de tanto folguedo

Que lindo tempo de infância
Brinquedos, jogos, folia
Tudo tem mais importância
Depois de nascer o dia

A mãe, figura presente
Sozinhos não estão sós
Amor constante, envolvente
Dos pais, dos tios, dos avós

E nesse exato momento
De sono reparador
Elevo meu pensamento
Ao nosso Deus e Senhor

Peço-lhe mostre o caminho
Para uma vida decente
Num mundo cheio de espinho
Precisa ter Deus presente

Enquanto se é criança
O faz-de-conta acontece
Esse tempo de bonança
É fase que não se esquece

VERBORRAGIA

Quando se tem um projeto
Para levá-lo adiante
É por demais importante
Ter um estudo completo

Analisar com critério
Por pessoas de traquejo
Perguntar tudo sem pejo
Claramente, sem mistério.

Negócio requer dinheiro
O que nem sempre se tem
E dentre outros alguém
Quer mesmo fazer salseiro

A discussão acerba
Nada ficou definido
Foi mero tempo perdido
Muito verbo e pouca verba

VIDA FÁCIL

Dizem que mulher perdida
Gosta de ser procurada
Que quanto mais decaída
Mais fácil de ser achada

Inquirida se faz bem
Por andar fora da linha
Diz que na linha do trem
Sempre morre quem caminha

Morrer assim é inglório
Isso nunca lhe convém
Prefere num dormitório
Enlaçada com alguém

Faz parte do seu mister
Trocar sempre de parceiro
A perdida é mulher
De quem acenar primeiro

Enquanto tem formosura
Até parece rainha
Mas essa vida não dura
Pois aos poucos se definha

VIVER CÁ OU LÁ

Não me lembro quem me disse
- Envelhecer? que tolice
Ficar gagá não convém
Um poeta antigamente
Morria cedo somente
Por pensar que caía bem

Mas eu que não sou poeta
Defini que minha meta
É atingir os noventa
Batalho nesse sentido
Por ora bem sucedido
Porque passei dos setenta

Com rapidez me convenço
Embora até fique tenso
Se tiver de ir agora
É fraqueza do vivente
Que parte tão de repente
Hoje, amanhã, qualquer hora

Mas levado contrafeito
Eu direi ser meu direito
Querer um breve retorno
Se lá difere de cá
Ação má então não há
Como pois, tentar suborno?

ZOPEIRO

Comentava certo amigo
Entender como castigo
Viver após certa idade
Andar sem muita firmeza
Não ter a mesma destreza
Que só ficam na vontade

Já procede como bicho
Que por natural capricho
Demarca seu território
Em qualquer lugar urina
E por que não se domina
Faz da moita bom mictório

O esfíncter antes perfeito
Parece não ter mais jeito
A função perdeu a vez
Desse mal nem fala agora
Se falar a face cora
Seu castelo se desfez

Teme pelo seu futuro
Por ser homem já maduro
Bom emprego nunca tem
Pensou no Oriente Médio
Mas o serviço dá tédio
É tomar conta de harém

O PRESENTE

Dezenove do corrente
Daquela segunda-feira
Ouvi falar em presente
Pensei fosse brincadeira

Mas alguém fez comentário
Ao fitar rosto por rosto
É mimo de aniversário
Pois fez anos em agosto

Quando se fala em presente
Mesmo que seja modesto
O que se conta somente
É a nobreza do gesto

Mas se for livro, mormente
Que distingue quem recebe
É dar fonte permanente
Onde de graça se bebe

Em sendo de poesia
Então é grande pedida
Porque ler já é mania
Faz parte de minha vida

Por isso mesmo aproveito
Para dizer que agradeço
Estou muito satisfeito
E confesso, nem mereço

NOTA: Agradecimento feito a um poeta da cidade de Ibitinga – SP que, através de um amigo comum, ofereceu ao autor um livro de poesia.

O VÍCIO

Quando se tem qualquer vício
Só com muito sacrifício
Para deixá-lo de vez
Decisão tão importante
Requer força de gigante
Por um ano, dois ou três

Passado o tempo suponho
Fato que parece sonho
O vício já se domina
Mas no decurso da vida
Para evitar recaída
Só vontade e disciplina

É bom lembrar do momento
Em que se mune do intento
De distanciar-se da morte
Quem saiu do precipício
Hoje colhe o benefício
Agradece tanta sorte

Droga, cigarro, bebida
Sempre provocam ferida
Até no ser mais robusto
Mas antes que seja tarde
É bom fugir sem alarde
E nem importa a que custo

OCASO DA VIDA

Pai que dez filhos sustenta
Confessa o grande receio
Viver além dos oitenta
E ser jogado a escanteio

Asilado então espera
Por ser velho decadente
Segregado tal qual fera
Agora é indigente

Nenhum dos seus o socorre
Velho é sempre problema
Só chorado quando morre
Assim é nosso sistema

Vive só mesmo com Deus
Fruto da vida moderna
Sem o conforto dos seus
Sonha com a vida eterna

PAIS

Devemos a nossos pais
O que fizeram por nós
Exigimos muito mais
Do que aprontaram a sós

Um momento de prazer
E muitos de dissabor
Então para conceber
É preciso muito amor

Criar bem é missão dura
Preocupação constante
Darem tudo com fartura
Os pais pensam ser bastante

Sem praticar o que diz
De pouco vale o conselho
Se para qualquer petiz
Os pais sempre são espelho

Forçar fazer o que dizem
Se só dizem, mas não fazem
Ainda que muito bisem
Tudo é mera bobagem

Se muito derem ao filho
Além disso, o bom exemplo
Missão cumprida com brilho
Merecem lugar no templo

POBRE CARDÁPIO

Sofredor de cefaléia
Usei tanta panacéia
Não consegui me curar
Consultei bom esculápio
Ele culpou meu cardápio
Que me aconselha mudar

Disse que melhor saúde
Até para a juventude
Depende de boa comida
Quando bem balanceada
Traz saúde de carrada
E muitos anos de vida

Concordei, porém lhe disse
Mas com certa gaiatice
Ir pensar nesse conselho
Sou do I.N.S.S.
E por muito que quisesse
Nunca saio do vermelho

Se não posso comer bem
O problema sobrevém
Fico então nesse dilema
Como bem uma semana
Em outra pão com banana
E não resolvo o problema

Por quanto tempo não sei
Talvez enquanto uma lei
Mais humana for bolada
Mas como nada acontece
Oro, choro, faço prece
Como o que posso e mais nada

PREFERÊNCIA

Morrer repentinamente
É meta de muita gente
Que nunca se satisfez
Ao partir sem prévio aviso
Tem em mente o paraíso
Pelo bem que muito fez

Outros que mofam no leito
Pensam ser esse o jeito
De melhor se redimir
Não atinam com o fato
De o fardo ser muito chato
Para quem tem que assistir

Um ente já bem enfermo
Que deseja o meio termo
Também fica dependente
Isso lhe causa tristeza
Se pudesse, com certeza
Entre muitos ia na frente

De morrer poucos têm pressa
Fato que só interessa
A quem sofre neste mundo
Ao querer morrer em breve
Como castigo aqui deve
Penar como moribundo

PROMESSA

Quando eu fizer cem anos
No convívio dos humanos
Quero fazer grande festa
Chegar lá não é comum
Em cada mil talvez um
É porcentagem modesta

Uma condição imponho
Se realizar o sonho
Preciso estar com saúde
Do contrário não aceito
Se estiver preso no leito
Será melhor no ataúde

Vegetar, isso não quero
Se minha nota for zero
Não há como ser feliz
Com meu esqueleto bem gasto
Logo vou servir de pasto
Ver capim pela raiz

Mas se tiver lucidez
Então é a minha vez
De festejar o momento
Só na base de champanhe
Nela o povão que se banhe
Para marcar tal evento

PSEUDO-CRISTÃO

Você é cristão, já sei
Porém jamais concordei
Com esse seu proceder
Cultuar só tem valor
Perante Nosso Senhor
Cumprido certo dever

Malquerer seu semelhante
Já é motivo bastante
De não seguir o preceito
Se não perdoar seu irmão
Nem fervorosa oração
Será por Deus bem aceita

Se quer que tenha valia
Aprenda mais cada dia
Tire de vez a viseira
Somente bater no peito
Recitar um chavão feito
Já se vê que tem cegueira

Se tem qualquer desavença
Precisa em nome da crença
Harmonizar-se primeiro
Fazer como os fariseus
É querer enganar Deus
Não se finja de cordeiro

QUATRO FLORES

Muitos dizem ser a rosa
A rainha do jardim
Reconheço ser formosa
Belas são todas enfim

A dama-da-noite exala
Inconfundível odor
Outra flor que se iguala
É você, meu grande amor

Uma flor aveludada
Que goza de bom conceito
Tão mimosa, salpicada
Tem por nome amor-perfeito

A flor por ser delicada
Ao ser humano cativa
Devia ser conservada
E querida enquanto viva

Colhê-la e fazer buquê
Um prazer bem difundido
Dele discordo porque
Para mim não faz sentido

Gosto da flor no jardim
Como quer a natureza
Nem todos pensam assim
Lotam o vaso da mesa

RECOMENDAÇÃO

Se me virem de pés juntos
Tal e qual tantos defuntos
Não levem o caso a sério
Peço aceitarem o fato
Afinal é mais um chato
Que vai para o cemitério

Não quero que vocês chorem
Rogo até que comemorem
Com estrondosas risadas
Na frigidez do velório
Rebusquem no repertório
As mais picantes piadas

Se lhes faltar a coragem
Por relembrarem da imagem
Que transmiti a vocês
Podem manter o decoro
Tudo bem, desde que choro
Ninguém ouça desta vez

Depois do sepultamento
Não falem mais desse evento
Mesmo que surja motivo
Sei que ao partir desta vida
Deixei a carcaça sofrida
Mas eu saí muito vivo

Eis porque na minha tumba
Espero que alguém se incumba
Deste epitáfio conciso:
“Mais uma missão cumprida
Espero por nova vida
Que evoluir é preciso”

REGINA

Minha vizinha Regina
Dona de língua ferina
Além disso alcoviteira
Jurou ver-me com a Lia
Por volta de meio-dia
Rondar motel de terceira

Mas nisso não há surpresa
Se somos de cama e mesa
E curtimo-nos demais
Tê-la comigo, portanto
Não há porque tal espanto
É normal entre casais

Regina, tu não tens jeito
Assim me dás o direito
De até tecer comentário
Supor que seja despeito
Que também sonhou com leito
Ao vislumbrar o cenário

Então, Regina, proponho
Satisfazer o teu sonho
Secretamente nutrido
Vem comigo sem ter pejo
Saciar o teu desejo
Que suponho reprimido

RIMA POBRE

Verso precisa de rima
Sendo branco não agrada
Porque rima bem bolada
Pela qualidade prima

Não usar aumentativo
E gerúndio também não
Outra preocupação
É verbo no infinitivo

Diminutivo, outro meio
Que força demais a rima
Assim não sai obra-prima
E por certo fica feio

Evitar construção pobre
O que é muito comum
Mas não tem valor algum
Quando falta rima nobre

Um poeta sem anseio
Sabe que em certo momento
Bafejado por bom vento
Pode encontrar belo veio

Quem vê água cristalina
Ao sorver com avidez
Acha que só desta vez
Poderá fluir da mina

SEJA PRUDENTE

Vê-se tanta violência
No trânsito já caótico
Onde quem é mais despótico
Julga ter a preferência

Dirigir é muito sério
É preciso ser prudente
Não serve para demente
Candidato a cemitério

Ao provocar o acidente
Nem sempre o culpado morre
O cauteloso não corre
Mas morre mesmo inocente

Só mesmo pena marcante
Para infrator renitente
Quem matar por acidente
Jamais pegar num volante

SOU CAMBISTA

De dinheiro quem não gosta?
É deveras importante
Por isso minha proposta
Fica mais interessante

Eu me julgo bom cambista
Da loto, evidentemente,
Ando munido de lista
Faço aposta inteligente

Peço dez notas de cem
Aposto apenas metade
É assim que me convém:
Ganhar dinheiro à vontade

Talvez acerte uma quina
Mesmo quadra, simples terno
Mas que negócio da China!
Precisava ser eterno

NOTA: A personagem, parente afim, resolveu ganhar dinheiro grosso aliciando interessados em apostar nas diversas modalidades de jogos instituídos pela Caixa Econômica Federal e se vangloriava disso

TRATAMENTO DESIGUAL

Um amigo sexta-feira
Tinha roupa domingueira
De cor vermelha-bordô
Que dizia não ser fina
Era produto da China
Comprada de camelô

Sei que daquele país
Há muito tempo se diz
Que tudo é de segunda
Isso até se justifica
Se lá muito se fabrica
E tem mão de obra que abunda

Além disso há motivo
Que chega a ser abusivo
Na exploração do detento
Ele trabalha de graça
Todo o tempo que lá passa
Só trabalha, sem alento

Chinês é sempre punido
Se discordar do partido
Ou falar mal a respeito
Aqui neste paraíso
Falo o que nem é preciso
A tudo tenho direito

Na China muito se pune
Mas aqui se fica imune
Quando muito, pena leve
Isso me deixa confuso
Onde que tem mais abuso
Lá se paga, cá se deve

USE A CABEÇA

Quem quiser ganhar no bicho
Tem que ser muito sabido
Não joga grana no lixo
Se usar o sexto sentido

Sonhar com monte de cana
Estando um burro por perto
Não fazer fezinha insana
Que burro não dá, por certo

Pensar que a cana tem nó
E como o burro tem venta
Tais palavras numa só
O resultado: noventa

Noventa, bela dezena
É urso evidentemente
Se nada intuiu da cena
Precisa treinar a mente

Caminhoneiro de sorte
Consigo driblar a morte
Nessa perigosa vida
Só me sinto mal, confesso
No instante em que me despeço
Da minha mulher querida

Outro fato que me cala
É quando meu filho fala
Que sente falta de mim
Ele tem razão de sobra
E por pouco não me dobra
Quando ouço falar assim

Muita gente desaprova
O deixar mulher tão nova
Cheia de vitalidade
Porém aposto no jogo
Até ponho a mão no fogo
Ela esbanja castidade

Mesmo assim eu reconheço
Cada ser tem o seu preço
Como todo mundo diz
Antes que certo mal cresça
E atinja minha cabeça
Corto o mal pela raiz

Tenho em vista bom emprego
Jeito de ter mais sossego
E ficar junto dos meus
Através de bom cartucho
Vou ter emprego de luxo
Que ao transporte digo adeus

VIDA LIVRE

Queira ou não, o tempo passa
Quero viver o presente
Esta vida só tem graça
Para quem vive contente

Serei feliz doravante
Por deixar de ser cativo
Adeus luta desgastante
Tive sorte em sair vivo

Essa fase foi vencida
Vou viver a nova era
Ver o lado bom da vida
Depois de sofrida espera

Quem muitos anos lutou
Mesmo sem ter liberdade
Agora tudo mudou
Faço o que tenho vontade

Não fico mais em prisão
Que dentro dela definho
Quero vida e muita ação
Livre como passarinho

ZUMBI

Ouvi falar de Zumbi
Ainda quando menino
Lição que desconheci
Mesmo na sala de ensino

Talvez de caso pensado
Para atender não sei quem
Seu feito se foi narrado
Creio que foi com desdém

Mas a verdade emergiu
Desfez a parte ilusória
Esse fato`só surgiu
Nos bastidores da História

No quilombo de Palmares
Certo capitão-de-mato
Com soldados aos milhares
Chegou com grande aparato

Reduto de fugitivos
Todos sofridos escravos
Lutaram, eram altivos
Antes morrer como bravos

Foi grande a carnificina
Também Zumbi pereceu
Fechou de vez a cortina
Palmares não se rendeu

VOTO FORÇADO

Elegi vereador
Prefeito, governador
Deputado senador
Até mesmo presidente
Como todo o brasileiro
Voto para fazendeiro
Industrial e banqueiro
Nem pode ser diferente

Detesto que seja assim
É preciso dar um fim
Pensar em você, em mim
Não é função dessa gente
Quando bolam uma lei
Até de antemão já sei
E tantas vezes falei
Que pensam neles somente

Exemplifico melhor
Com o caso do menor
Para votar é maior
Tudo bem, a lei atende
Assim ao votar de fato
Pode eleger candidato
Se matar, não paga o pato
É menor, a lei defende.

O SEM GRAÇA

Não queira ser engraçado
Já que você não tem graça
Caso forçar ganha taça
Como chato consumado

O bom é ser comedido
Dosar muito bem a fala
Às vezes o ser que cala
É por ser mais precavido

A graça é dom divino
Verdadeiro privilégio
Pois nem no melhor colégio
Ministra-se tal ensino

Não force a barra, portanto
Assim sugere o bom senso
É deste modo que penso
E o resultado garanto

Se quer bancar o idiota
Forçar ser o que não é
Eu posso apostar até
Vai ser alvo de chacota

O VOTO

Não vá votar sem critério
O ato merece censura
O voto deve ser sério
Se quer melhora futura

Quem promete fazer tudo
Só demonstra pura lábia
É conversa de papudo
Use atitude mais sábia

Quando votar outra vez
Se quer acertar de fato
Veja se há sensatez
Na fala do candidato

Votar em branco, besteira
E cancelar, não convém
Este vai para a lixeira
Aquele será de alguém

CONVERSA MOLE

Alguém perto dos setenta
Fala que não se agüenta
Ouvir somente besteira
Cheio de pé-de-galinha
A comentar quando tinha
Mulheres dando canseira

Hoje se diz desgastado
Só dá conta do recado
Porque dosa muito bem
Nada mais além de três
No longo prazo de um mês
Mas antes era de cem

Se tem alento garanto
Não ser motivo de espanto
Nem sei porque da falácia
Como o “Viagra” aciona
O aparelho funciona
Basta comprar na farmácia

Assim se tira proveito
Porque não há outro jeito
Tão natural como outrora
É bom não tocar trombeta
Quem precisa de muleta
Nunca tanto quanto agora

Nota: O “Viagra”, potente remédio em forma de comprimido, criado em 1998, tem por finalidade provocar a ereção ao redor de uma hora e trinta minutos após a ingestão.

CONSTITUIÇÃO

A nova constituição
Teve longa gestação
Mas não pariu coisa boa
Aos amigos eu dizia
Que tal demora valia
A gestação de elefoa

Foi por terra a esperança
Porque foi pouca a mudança
Para tamanha demora
O tempo passa depressa
E muito pouco interessa
Esse trabalho de agora

Quem está comprometido
Seja de qualquer partido
Deve batalhar no posto
Não pode fugir da raia
Assim gente dessa laia
Somente causa desgosto

Sei que cada deputado
Parece meio avoado
Perto de nova eleição
Como só pensa em dinheiro
Não quer descer do poleiro
Mas legislar? Isso não!

NOTA: A constituição vigente desde 1988 não acompanhou a evolução dos tempos e é falha em muitos pontos, não obstante o longo tempo despendido para aprová-la.

CONSORTE AVOADA

Quem quer complicar a vida
Sempre terá bom motivo
Neste caso, Margarida
Serve como exemplo vivo

Em casa, pouco serviço
Lá fora, muito lazer
Postergava compromisso
Porque não dava prazer

Contratou uma serviçal
Prestimosa, tão bonita
Que provocou no final
A inesperada desdita

Empregada diligente
Não passou despercebida
Fez ali novo ambiente
Na ausência da Margarida

O patrão vivo, sagaz
Sem maior dificuldade
Estando a sós, bem que faz
Cantar com classe a beldade

Aceito logo o convite
Ela também tinha chama
O caso por si permite
Prever o ranger da cama

CONFUSÃO

Veja você com espanto
Se lhe digo que acalanto
A dócil e meiga Bela
Mas de mulher não se trata
Essa nem sempre é grata
Falo de minha cadela

Já é quase madrugada
Solitário na calçada
Vejo um vulto que me acena
Sem rodeios se oferece
Lá mesmo o fato acontece
Com tão formosa morena

A tais versos que antecedem
Outros fatos todos pedem
Mas eu vou ser enfadonho
Porque tudo o que se disse
É deslavada tolice
Isso não passou de sonho

CONFISSÃO

Arminda garota linda
Cuja imagem me fascina
Em tantos anos ainda
Não vi tão bela menina

Quisera que fosse minha
Esse sonho me seduz
Dar-lhe trato de rainha
Pois ela a tudo faz jus

Amar, palavra bonita
Havendo sinceridade
Já fiz dela a favorita
Confesso a pura verdade

Vou fazer-lhe tal proposta
Que fará bem a nós dois
Mas quero logo a resposta
Para amanhã ou depois

Isso porque se demora
Essa espera me judia
É lento o passar da hora
Assim não tem fim o dia

COM “P” DE PATO

Programado por Patrícia
Puro prazer passageiro
Propôs parada propícia
Preferiu-me por parceiro

Pela polícia prensado
Pressão padrasto pequena
Parto porque precatado
Postergo possível pena

Polido, prato perfeito
Puro pateta, pacato
Provido para proveito
Pilhado pagarei pato

Proclamo par permanente
Para pessoas puritanas
Prefiro prudentemente
Pisar paragens praianas

CICLOS DE VIDA

Hoje me lembro saudoso
Daquele tempo ditoso
Que se prolongou por anos
Mas tudo passa na vida
Agora estou de partida
Após muitos desenganos

Esta vida é tão curta
Que da morte não se furta
Ela ceifa sem critério
Acontece de repente
Mesmo sendo prepotente
Vira pó no cemitério

Não existe segurança
Morre até tenra criança
Ninguém se julga feliz
Se a morte ronda por perto
Logo mais é quase certo
Ver capim pela raiz

Dizem que Matusalém
Viveu mais do que ninguém
Mas outros partiram cedo
Jamais vou contestar isso
Comportado e submisso
Posso ir já e sem medo

Não sendo materialista
Deixo meu ponto de vista
Para constar nos anais
Como simples despedida
Encerro um ciclo de vida
Retornarei logo mais

CICLO FINAL

Até parece castigo
Mas aquele bom amigo
Está no bico do corvo
Lutou tanto mas agora
Vai ficar bom tempo fora
No batente é estorvo

Se cada ciclo da vida
Tem uma certa medida
Forçar demais é loucura
Para que lutar na marra
Que nem sempre se tem garra
E a luta é muito dura

Precisa ter um limite
Quem está com tudo quite
E já próximo dos cem
Trabalhar fica sem graça
Só se quer levar a taça
De novo Matusalém

Agora quase no fim
Diz não estar mal assim
E que não irá tão breve
Pode viver mais um mês
Pelo muito que já fez
Que a terra lhe seja leve

CERTO MINISTÉRIO

Parece tempo perdido
Falar em reforma agrária
O sem-terra foi traído
Sobrevive como pária

Como o problema é sério
É bom deixar meu registro
De querer um ministério
Onde opere bom ministro

Se dentre muitos no entanto
O melhor foi tão pequeno
Só resta ao pária, portanto
Sonhar com o seu terreno

Com ministro de fachada
É jogar dinheiro fora
Ganhou muito, não fez nada
E não fará nem agora

A lentidão desespera
Quanta maldade sem nome
A lei do mais forte impera
O pária morre de fome

CASAL PERFEITO

Vivo a sonhar acordado
Vendo você ao meu lado
Acessível, carinhosa
É rainha da beleza
Parceira de cama e mesa
Temos vida cor-de-rosa

Dizem que tudo termina
Após cair na rotina
Não quero pensar assim
A vida embora passagem
É mais que curta-metragem
Para logo ter um fim

Por isso faço meus planos
Certo que ao passar dos anos
Tudo será como agora
Para que tal aconteça
É preciso ter cabeça
Hoje, amanhã, qualquer hora

Com mulher como você
Que conhece o ABC
Para se viver a dois
Quero usufruir sem pressa
Se tenho razão à beça
Não deixar para depois

Por você tudo farei
Confesso agora que sei
Como se trata mulher
Você é parte de mim
Sou feliz por ser assim
Até quando me quiser

A CERVEJA

Aqui como nos confins
Eu sempre lavava os rins
Com a gostosa cerveja
Mas agora a nova lei
Bolada por quem não sei
Diz ser ela malfazeja

Afirmação que não cola
Porque na minha cachola
A cerveja só faz bem
Para comprometimento
Só quando muito sedento
Do limite vou além

Mas a lei como foi feita
Até desperta suspeita
Quem bolou é islamita
Ela é demais severa
Que burlá-la quem me dera
Sinto falta da birita

Agora em qualquer evento
Peço vênia, não frequento
Passar vergonha não quero
A Lei Seca desagrada
Acho que foi mal bolada
Por ter tolerância zero

QUATRO ESTAÇÕES

Quão belo é meu jardim
Com área tão reduzida
Encanto de minha vida
Sentir o odor do jasmim

É tão bela a primavera
Com agradável odor
Que emana de cada flor
E satura a atmosfera

Verão, estação do pobre
Se nem roupa é preciso
Em cada rosto um sorriso
Com mero trapo se cobre

Outono. mês da colheita
Com média temperatura
É estação de fartura
Que a todo mundo deleita

Mas o inverno é tormento
Tão duro de suportá-lo
É dose para cavalo
Nele não se tem alento

Mas como Deus é perfeito
Tudo o que fez tem motivo
O ser porém pouco vivo
Tem a visão com defeito

TEMOR DO ALÉM

Por certo ninguém garante
Que vaguear como errante
Seja fato bem aceito
O que vem após a morte
Nada tem a ver com sorte
Nem se pode dar um jeito

Eis porque o desenlace
Tão natural a quem nasce
Afugenta tanta gente
Quem nada sabe do além
Mesmo que alguém fale bem
Por certo não vai contente

Partir quando não se espera
Faz com que vá como fera
Demora cair em si
Mas a ficha sempre cai
Assim foi que quis o Pai
Ninguém vai ficar aqui

Mesmo que muito se viva
Fica-se na defensiva
Por nada saber do além
Embora temente ao Pai
Ao partir feliz não vai
Por muito medo que tem

CAMINHONEIRO JOVEM

Como bom caminhoneiro
Percorro o Brasil inteiro
Fico longo tempo fora
Mas chega certo momento
Sofro tanto desalento
Que preciso vir embora

Gasto pouco, sou solteiro
Dá para ajuntar dinheiro
Preparar o meu futuro
Por ser um rapaz ativo
Escolado, muito vivo
Tenho fama de pão-duro

A vida passa depressa
Se gastar dinheiro à beça
Nunca faço o pé-de-meia
Eu sonho com vida mansa
Em trabalho que não cansa
Mas manter carteira cheia

Agora volto aos meus pagos
Receber muitos afagos
Da querida namorada
Volto com tamanha pressa
Ela muito me interessa
Que não posso dar mancada

Meu caminhão ganha asa
Ao retornar para a casa
Quando desço na banguela
Preciso chegar depressa
Porque lhe fiz a promessa
Estar hoje ao lado dela

CAMINHONEIRO FELIZ

Caminhoneiro gamado
E por sinal bem casado
Entre nós há tanto amor
Por isso quando partia
Só eu sei quanto sofria
Pungido por grande dor

Mas hoje vivo contente
Cruzo nosso continente
Sorridente e bem disposto
Não tenho mais o problema
E por bolar novo esquema
Tenho vida que dá gosto

Antes do romper da aurora
Saio pelo mundo afora
Com qualquer tipo de carga
O mês transcorre depressa
Porque tudo me interessa
Sem a solidão amarga

Minha mulher vai comigo
Parceria que bendigo
Já não há monotonia
Nossa comida ela faz
Em qualquer lugar apraz
Ao longo da rodovia

Vida linda também finda
E no caso com a vinda
Do nosso primeiro filho
Mas enquanto a gente espera
O evento na primavera
Vivemos o nosso idílio

BOM SENSO

Eunice, você me disse
Que não passa de tolice
O pensar em casamento
Nisso tem razão à beça
Concordo mais que depressa
Condiz com meu pensamento

Mas de transar sei que gosta
Então lhe faço a proposta
De se bolar bom programa
Não deixar para depois
O que de melhor nós dois
Podemos fazer na cama

Há porém um entretanto
Motivo de desencanto
Nessa fase de folguedo
Quem descuida do bom senso
A cada dia me convenço
Terá problema bem cedo

Transar faz parte da vida
Mas requer certa medida
Quando se quer ter certeza
Por isso bela parceira
Uma transa passageira
Não deve trazer surpresa

BLOQUEADO

Um casamento perfeito
Digo com muito respeito
A razão por que não creio
É um fato conhecido
Que com o tempo a libido
Fica sujeita a bloqueio

Às vezes nem é por isso
Leva o duro compromisso
Tudo por causa da prole
Se não perder o juízo
Suporta a cruz com sorriso
Porque tem coração mole

Um amor benevolente
Não satisfaz plenamente
Que mulher não é irmã
Conviver sem tal encanto
É dose só para santo
Que mantém a mente sã

Se tal prazer não existe
Para que ficar tão triste
Pois a culpa é da idade
É melhor levar com classe
Logo chega o desenlace
Que independe da vontade

AVENTURA

No dia dois de fevereiro
Foi no ano de oitenta e dois
Mesmo com pouco dinheiro
Não deixei para depois
Encetei minha façanha
Mas antes respirei fundo
E comecei pela Espanha
Conhecer o velho mundo

Vi Madri, vi Barcelona
Conheci Roma e Paris
Muitas vezes de carona
Mas mesmo assim fui feliz
Vi Berna, Londres, Atenas
Fui até no Oriente Médio
Apreciei tantas cenas
Só o deserto deu tédio

Três anos só de aventura
Esgotou-me a paciência
Sem meios, como foi dura
A minha sobrevivência
Agora já entre os meus
Na minha terra querida
Com a proteção de Deus
Recomecei minha vida

NOTA: Aqui tentou-se descrever as peripécias de um filho que, sem recursos, resolveu conhecer alguns países onde trabalhou para sobreviver, pouco se importando com o tipo de trabalho, sempre sem vínculo empregatício, já que a estada foi sempre ilegal.

AVENTURA CARA

Fui feliz por alguns anos
A vida sem empecilho
Agora após desenganos
Eu curto a mágoa no exílio

Quanta saudade de outrora
Da vida mansa que tinha
Mas supunha estar lá fora
O meu trono de rainha

Então em dado momento
Cometi grande loucura
Desfazer um casamento
Só por gostar de aventura

No começo, lua-de-mel
Tinha tudo o que quisesse
Depois mulher de aluguel
E a grande fúria arrefece

Houve tempo de amor louco
De quase quebrar a cama
O que foi bom durou pouco
Das nuvens caí na lama

ATUALMENTE

Veja quanto desperdício
Teimar em ficar sozinha
Se não meço sacrifício
Para que tu sejas minha

Desta vida passageira
Temos que tirar proveito
Até proponho a maneira
Compartilhar do meu leito

Porque não deixar de lado
Aquele pudor de outrora
O que valeu no passado
Não tem mais valor agora

Hoje é bem diferente
Até quando se namora
Aquele fogo crescente
Nós apagamos na hora

Com tamanha liberdade
Podemos tirar proveito
Para que passar vontade
Se a tudo temos direito

Nem precisa ver depois
Que de antemão se adivinha
Onde brincamos nós dois
Sempre fica a camisinha

ASSIM É

O rapaz na puberdade
Freme de tanta vontade
Sonha sempre com mulher
Ela com desconfiança
Por ver nele uma criança
Finge então que nada quer

Triste fase que lamenta
Sem mulher não se contenta
Acha que sofre demais
Mas vislumbra no futuro
Compensar com alto juro
Esse sonho dos mortais

Conseguiu ter o que quis
Mas não se sente feliz
Por agir tal qual insano
Por seguir ordem papal
De transar ao natural
Foi ter um filho por ano

Agora que desencanto
Aquela parceira e tanto
Sofre e bem sabe a causa
Está perto dos cinqüenta
Além da luta que enfrenta
Vem agora a menopausa

Fiel à ordem papal
Sentiu deveras o mal
Que lhe pesa nesta vida
Já na casa dos sessenta
É dura a barra que enfrenta
Que imposição descabida

Voltar atrás não tem jeito
Que Deus fez tudo perfeito
Para sempre ser assim
Nova geração desponta
O varão nem se deu conta
Mas está perto do fim

ASSANHADA

Resolvi grave problema
Ao romper com Iracema
Mulher do chifre furado
Quis rebaixar meu conceito
Comentou ser meu defeito
Não dar conta do recado

Sou normal, nada de excesso
Por isso não sou possesso
Em ficar com tal mulher
Tem uma sanha tamanha
Eu não sou dado a façanha
Mas ela sempre me quer

O que é demais enjoa
Mesmo sendo coisa boa
Há que ter comedimento
Do contrário se desgasta
Razão de lhe dar um basta
E viver com mais alento

Um marido para ela
Fica de cor amarela
Logo no primeiro mês
E se a gente não der conta
Ela certamente apronta
Corneia com dois ou três

APARÊNCIA ENGANOSA

É linda mulher além disso astuta
Todos a querem, alvo de disputa
Mas para quem a voz corrente imputa
A pecha de ser reles prostituta

Homem que a vê uma só vez refuta
O alerta do colega tão batuta
Que por sinceridade não reluta
Em passar a ficha para o recruta

Qualquer machão fica logo biruta
Desnorteado muda de conduta
Parece surdo se a ninguém escuta
Só tem ouvido para a prostituta

É esbelta do tipo dito enxuta
Muito jeitosa, além de ser arguta
Por isso vence sem nenhuma luta
Eis a bela mulher que se disputa

AJUNTAMENTO

Comprar com tamanha pressa
Se há produtos à beça
É difícil conceber
Muitos mercados por perto
Não estimula estou certo
Tal modo de proceder

Fiquei com aquele grilo
E logo fui ver aquilo
Saber do motivo justo
Talvez venda de produtos
Que se limita a minutos
Com preços aquém do custo

Mas para meu grande espanto
E ainda maior encanto
Nada disso acontecia
Juntava ali tanta gente
A curtir festivamente
A vida por mais um dia

Uns só contavam lorotas
Outros belas anedotas
Dentre tantas uma nova
Fiquei lá o quanto pude
Vi velhos com boa saúde
Outros com os pés na cova

AGRADECIMENTO

Ao pai maior agradeço
A graça que não mereço
Desta vida sem tropeço
Que desfruto com os meus
Assim em graça, portanto
Em tudo só vejo encanto
Desde quando me levanto
Sob o manto do bom Deus

Então agora confesso
Que ao grande pai nada peço
A não ser também sucesso
A você meu semelhante
Para ganhar a mercê
Desse pai que tudo vê
Basta pedir que lhe dê
Tempo e saúde bastante

AFINIDADE

Já estou quase descrente
Talvez por ser exigente
Em formar nova amizade
Não encontro em nenhum canto
Aquele parceiro e tanto
Com a mesma afinidade

Eu sempre tenho na mente
Que não é muito decente
Forçar alguma amizade
Melhor esperar portanto
Surgir como por encanto
Alguém com afinidade

Amizade consistente
É meta de muita gente
Porque traz felicidade
Mas já sei, quase garanto
Quão difícil é no entanto
Por questão de afinidade

Muitas vezes um parente
É tido como boa gente
Expoente da bondade
Procede tal qual um santo
Mas nada me diz porquanto
Falta-nos afinidade

ADEUS COLEGAS

Em dezembro, fim do mês
Digo adeus à dependência
Há muita conveniência
Em me libertar de vez

Esse sonho tão antigo
É quase realidade
Porque é pura verdade,
Tudo o que quero consigo

Tenho força positiva
Grande chave do sucesso
E por isso agora peço
Meus amigos, gritem “viva!”

Vou sair com bom dinheiro
Ter a vida que sonhei
Se do que quero já sei
É lazer, já sinto o cheiro

Nota: Fato ocorrido com o autor em fins de 1980 quando estava prestes a deixar o emprego onde trabalhava há mais de duas décadas. Devido à pressão que o trabalho impunha ele dizia que se não fosse dispensado logo, talvez a indenização fosse substituída por uma coroa de flores.

ADEUS CIDADE GRANDE

Cansado da vida na grande cidade
Na luta renhida por necessidade
Pensei na saída para a liberdade
Questão decidida, parti com vontade

A nova cidade por mim escolhida
Confesso a verdade, que bela pedida
Por felicidade lá tive acolhida
Estou bem à vontade na nova vida

Sozinho, porém, o tempo corre lento
Isso não convém, aspiro movimento
Elegi o meu bem e saiu casamento
Já nos entretém o segundo rebento

Lutei pelo ensejo de morar na roça
Agora me vejo na minha palhoça
É tudo o que almejo, nunca sinto fossa
Nas folgas versejo mas por mera troça

Nota: A ida de um filho para trabalhar no interior levou o autor, anos depois, a interpretar, embora vagamente, o que se passava no íntimo do rapaz nos primeiros anos vividos sozinho.

AÇÃO DO TEMPO

Mesmo a contra-gosto tudo passa
A vida perde a graça, parece
Arrefece até que a vida cesse
Nem que se apresse o declínio grassa

Se a loiraça pela frente passa
Mesmo sem graça faz vista grossa
Teme a troça por estar na fossa
Mas ela, nossa! só mostra graça

Vez por outra ainda tem alento
Nesse momento revive a fama
Com muita chama pensa na cama
Nem sempre ama no feliz evento

Vive temeroso da censura
É muito triste não ter saúde
Não há jeito, é decrepitude
Golpe rude que traz amargura

ACADEMIA DE LETRAS

Nossa pobre Academia
De Letras, ninguém diria
É entrave a quem ensina
Estrangeiro pouco afeito
Se já nem fala direito
Não entende patavina

A Semântica, que dose
Causadora de neurose
Sempre gozou dessa fama
Mas terá fim o problema
Se mudar para o sistema
Que Fonética se chama

Como aprender o ABC
Se até S vale Z
Com função de C também
X pode valer CH
Já deram um fim no K
H nulo se mantém

Tem mais valores o X
Só porque nosso país
Concorda com estultice
Devia seguir sua linha
É assim que se caminha
Acompanhar é burrice

Vou registrar nos anais
Se tiver que falar mais
Dessa grande estupidez
Por desagrado profundo
Quando retornar ao mundo
Prefiro ser um chinês

ASSANHADA

Resolvi grave problema
Ao romper com Iracema
Mulher do chifre furado
Quis rebaixar meu conceito
Comentou ser meu defeito
Não dar conta do recado

Sou normal, nada de excesso
Por isso não sou possesso
Em ficar com tal mulher
Tem uma sanha tamanha
Eu não sou dado a façanha
Mas ela sempre me quer

O que é demais enjoa
Mesmo sendo coisa boa
Há que ter comedimento
Do contrário se desgasta
Razão de lhe dar um basta
E viver com mais alento

Um marido para ela
Fica de cor amarela
Logo no primeiro mês
E se a gente não der conta
Ela certamente apronta
Corneia com dois ou três

ABUNDÂNCIA

Você formosa erudita
Responda-me sem rodeio
Por que comenta ser feio
Dizer onde abunda a pita

Lá no norte abunda a pita
Portanto, longe daqui
Onde medra o açaí
Uma palmeira bonita

Açaí também se chama
O fruto dessa palmeira
Tido como de primeira
Por dar refresco de fama

Minha arenga até irrita
Não chega a lugar nenhum
O meu falar é comum
Ao dizer que abunda a pita

A VELHICE

Certa vez alguém me disse
Que o sintoma da velhice
É por demais conhecido
Quem tiver a visão turva
A coluna meio curva
Caminha nesse sentido

Perda de parte do tato
Do paladar e do olfato
Também são outros sinais
Passa o tempo ali na sala
Não desgruda da bengala
Pois andar firme, jamais

Um começo de surdez
Sentido mais de uma vez
Ou tremer de vez em quando
São alguns sinais de alerta
Da partida quase certa
Que o momento vem chegando

Dor aguda por artrose
Até a grave trombose
Para infernizar a vida
Reumatismo deformante
Um definhar incessante
E depois a despedida

Outro fato que acontece
Qualquer velho bem conhece
Mas não fala como é
Urinar era de jato
Agora molha o sapato
Aquece o peito do pé

Mas ainda não é tudo
Há caso mais cabeludo
Que por ser grotesco humilha
Se “tira água do joelho”
Ao recolher o aparelho
Deixa molhada a braguilha

Mesmo com a companheira
Já deixou de brincadeira
Não dá conta do recado
Se tentar só tem canseira
Eis que dorme a noite inteira
Com mulher ali do lado…

A TERRA COME

Ela passava dos trinta
Mas a ninguém dava bola
Mulher bonita, boa pinta
Excelente meia sola

Era muito inteligente
Tinha uma voz de veludo
Salário mais que decente
Saldo bancário polpudo

Tinha vida solitária
Só porque gostava disso
Competente secretária
Muito amor pelo serviço

Isso até que certo dia
Cansou de viver assim
Daí querer companhia
Porque temeu pelo fim

Foi radical na medida
Nunca quis trocar de nome
Aquilo negado em vida
Logo mais a terra come

A SINECURA

Vou falar com o prefeito
Só ele para dar jeito
De me pôr na Prefeitura
Não aceito quebra-galho
Ele sabe quanto valho
Se realço sua figura

Trabalhar não é esporte
Para mim é quase morte
Só não é se for rendoso
Um emprego de chefia
Já dá certa regalia
Nele não fico nervoso

Conseguir um bom emprego
É certeza de sossego
Ele deixa a vida mansa
Se lutei pelo prefeito
Pensei que tão logo eleito
Fosse tempo de bonança

Afinal não foi de graça
Que discursava na praça
Presente em qualquer comício
Antevia a curto prazo
Resolver de vez meu caso
Ao ganhar um benefício

Quanta gente que conheço
Depois de tanto tropeço
Pode acumular tesouro
Eu também tenho esperança
Vem daí minha cobrança
Quero meu filão de ouro

A PROVAÇÃO

Meu grande amigo Maurício
Que batalha nesta vida
Nunca mede sacrifício
Para buscar a saída

A provação por que passa
Indica mesmo ser carma
Mas ora a Deus, pede graça
E recebe a melhor arma

Essa arma é paciência
De inestimável valor
Com ela tem resistência
E suporta a grande dor

A vida passa depressa
Este mundo é passagem
Depois tudo recomeça
Não se sabe em que paragem

Assim com grande virtude
Consegue chegar ao fim
Quanta luta por saúde
Quem me dera ser assim!

A PARCERIA

Recebi belo troféu
Em vinte e três deste mês
Mas a mim não cabe a vez
A você tiro o chapéu

Se muito fez na canção
Além disso a defendeu
Fez jus ao troféu, não eu
Poetaço temporão

Agradeço a deferência
No tocante à minha prole
Criar homens não é mole
Tudo devo à Providência

Mas volto à quadra primeira
E friso neste momento
Quem fez oitenta por cento
É dono da peça inteira

Assim deixo a seu dispor
O troféu seu de direito
Eu já fiquei satisfeito
Por ser colaborador

Apareça qualquer dia
Isso me dará prazer
Até pode acontecer
Uma nova parceria

A ORGANISTA

Tinha tanta simpatia
Aquela tal organista
Que mesmo sem ser artista
Ver seu órgão me aprazia

Mas a musicista bela
Primava pela decência
Daí nem com insistência
Pude ver o órgão dela

Não o mostrava a ninguém
Confessou-me ao pé do ouvido
Só mostraria ao seu bem
Mas quando fosse marido

Mantinha sempre coberto
Por muito zelo que tinha
Que dedilhava estou certo
Quando a deixavam sozinha

A OBRA-PRIMA

O primeiro homem do mundo
Depois de sono profundo
Despertou, mas que surpresa!
Ao seu lado sorridente
Surgida tão de repente
Eis a mulher, ó beleza!

Se o Criador do universo
Não decidiu pelo inverso
Moldando o varão depois
Ele sabia o motivo
Porém, Adão, muito vivo
Confrontou tudo nos dois

Ao vê-la muito formosa
Tão meiga, alegre, dengosa
Deu carrada de razão
Até Deus quando se anima
Em produzir obra-prima
Primeiro faz o borrão.

A MORTE RONDA

Parece que ninguém liga
Mas não sei de quem bendiga
Uma despedida agora
A morte ronda o vizinho
Se foge do meu caminho
Quem me curte comemora

Sou bastante precavido
Morrer é tão descabido
Para quem vende saúde
Por ver partir tanta gente
Até penso seriamente
Em fabricar ataúde

Como quem morre não fala
E não mais se vê na vala
Nem caprichar é preciso
O paletó de madeira
Que digo ser de primeira
Aumenta o lucro que viso

Creia leitor ser bobagem
Não faça de mim a imagem
Mais feia do que já é
Se falo sobre defunto
Não tendo melhor assunto
Posso ter fingido até

A MORADIA

Vê-se com tanta amargura
Como luta a criatura
Em busca de moradia
Mas quem ganha vil salário
Traz nos ombros o calvário
Muita luta a cada dia

Sendo a vida passageira
Que por não ser de primeira
É peso demais no astral
Sem lar então, de que jeito
Se não lhe dão o direito
Dessa posse natural

Agora se faz cobrança
Mas se queda na esperança
De ter a casa de graça
Perda de tempo, asseguro
Só se melhora o futuro
Pela agitação da massa

Uma cooperativa
E muita persuasiva
Talvez seja a solução
Comprar pelo melhor preço
Pensar logo no começo
Ser melhor em mutirão

Ao tomar tal atitude
A Deus só pedir saúde
Para prosseguir avante
Quem quer ter algo na vida
Não teme a luta renhida
Combate como gigante

A GUERRA

Pretendo ser deputado
Até já tenho bolado
Inusitado projeto
Espero que apresentado
Com louvor seja aprovado
Quero passá-lo completo

No caso de nova guerra
Que tantos males encerra
Só convocar rico ou nobre
Quem não tem eira nem beira
Que não perca a vida inteira
Se já perde por ser pobre

Isso tem razão de ser
Quem nada tem a perder
Por só ter a triste vida
Radicado na favela
Ao ver vazia a panela
Já luta pela comida

Quem leva vida de pária
Não vê como necessária
A defesa da nação
A vida dura que passa
Impede servir de graça
Se nada em troca lhe dão

Quem tem pinta de guerreiro
Que vá parar no estrangeiro
Lutar como mercenário
Talvez com alguma sorte
Consiga fintar a morte
E voltar com numerário

A FOFOQUEIRA

Eta mulher faladeira
Que falta de sensatez
Como provoca canseira
Só ela vale por três

Fala de modo estridente
Na porta da própria toca
Ali já é voz corrente
Ser rainha da fofoca

Mulher assim fosse minha
Ainda que bela gata
Eu forçava entrar na linha
Se não por bem, na chibata

Se decidisse ir embora
Depois de levar a tunda
Fosse logo, sem demora
Que mulher assim abunda

Quem fala da vida alheia
Não tem amor nem respeito
Talvez uns dias de cadeia
Fizessem mudar de jeito

Para viver nesta vida
Além de rédea segura
É bom mulher comedida
Cheia de amor e ternura

A FESTA

Agora resta somente lixo
Quanto cochicho durante a festa
Alguém contesta faltar capricho
Que uísque mixo outro protesta!

Grave maldade do ser humano
De cortar pano de qualquer jeito
É um defeito do leviano
Que causa dano, fere conceito

Se lá na festa bebeu de tudo
Depois papudo, contou vantagem
Ganhou coragem, ficou graúdo
Sintoma agudo, mudou de imagem

Essa atitude que se deplora
Não é de agora, foi sempre assim
Falo por mim que se a face cora
Já caio fora, prevejo o fim

Não faço festa, julgo loucura
Enquanto dura só embevece
Mas aparece a fatal figura
Faz diabrura, depois esquece

A ERUDITA

Eis a Verônica
De voz melódica
Tem como tônica
Muita retórica

Até eufônica
Dentro da ética
Fez uma crônica
Com dialética

Seu tom poético
Forte dinâmica
Deu até ao cético
Aura balsâmica

Antes estático
Depois elétrico
Foi sintomático
Ver-me frenético

Foi fato histórico
Fiquei perplexo
De muito eufórico
Dei-lhe um amplexo

A CIDADE VIOLENTA

Quando vou para a cidade
Fazer a compra do mês
Uma tristeza me invade
Que não contava a vocês

Fumaça de escapamento
Ou mesmo de chaminé
Deixa o céu meio cinzento
Fico tenso, dou no pé

As favelas no calor
E com esgoto a céu aberto
Exalam grande fedor
Além de crime ali perto

Em vista disso ou daquilo
Prefiro morar na roça
Lá me sinto mais tranqüilo
Em minha pobre palhoça

Quem ama a cidade pensa
Que levo vida boçal
Isso tomo como ofensa
Tenho vida natural

Na cidade há também
Um mau vício muito em voga
O jovem gasta o que tem
Na grande praga da droga

A BEBIDA

Tomar uns tragos a mais
Grande vício dos mortais
Eu lhes digo que jamais
Vou repetir esse ato
Foi por beber em excesso
Que só agora confesso
Mas por favor eu lhes peço
Não comentarem o fato

Cheguei em casa horas mortas
Vi pela frente duas portas
Minhas chaves eram tortas
Não entravam no orifício
Depois de tanto tormento
Cansado por tal intento
Nem me lembro qual momento
Dormi fora do edifício

Acordei com sol a pino
E vi na frente um menino
Meu vizinho, pequenino
Um mero nenê de touca
Disse que me protegia
Tal qual um anjo da guia
Porque enquanto eu dormia
Um cão me lambia a boca

Decumbente, o senil e decrépito varão suportava a canícula do estio, destra sob o mento, estático como uma esfinge, nem reunia forças para locomover-se até a sombra de secular baobá providencialmente localizado em seu derredor, próximo a um arroio, cujo murmurinho sedento ouvia. Pressentia o seu prestes desenlace, o abandono da carcaça exaurida e o célere adentramento no éden da sua alma cândida e angélica, já que a sua consciência era imaculada.
Sua vida nômade comparava-se à de um barco à deriva e lhe dava a sensação de liberdade plena, mas agora, macróbio e sem asilo, via no sedentarismo que sempre desdenhou a vida ideal.

Nem o eflúvio ou a brisa que esporadicamente provinha das cercanias tirava-o do marasmo e da absorção envolventes.

Eis que, abruptamente, de um carrascal adjacente ouviu o matraquear estridente das fortes mandíbulas de uma vara de queixadas vinda em sua direção com o ímpeto e a ferocidade peculiares à espécie.

Do torpor que antes o dominava ressurge num átimo o intrépido mancebo de outrora, galgando lépido frondosa árvore que se lhe depara a poucas braças e queda-se medroso até passar o turbilhão ameaçador…

Moral da história: A luta pela sobrevivência é um dom divino.

ESBANJAMENTO

Quando chega o fim do ano
É hora de traçar plano
Com o décimo-terceiro
Quem se julga bem sensato
Nem o que se diz barato
Vai levar o seu dinheiro

Sempre há um novo dia
E até pequena quantia
Fará falta no futuro
Então com muita prudência
Quem já tem muita vivência
Prefere ser um pão-duro

Mas sempre há muita gente
Que só pensa no presente
Então o dinheiro some
Essa sanha em gastar tanto
Para muitos causa espanto
Que até lhe dão outro nome

Dizem que é perdulário
Se não tem saldo bancário
E não faz um pé-de-meia
Por pura falta de tino
Do que se tem no intestino
Já tem a cabeça cheia

BEM-VINDOS!




free counters